sábado, 22 de setembro de 2007

Aceito-nos, mas por favor vamos evoluir...

Aceitação não significa letargia... Considero a aceitação de nós e dos outros um factor fundamental para uma vida harmoniosa entre todos os seres humanos. Penso também que a crítica constitui uma pedra basilar do crescimento pessoal. Acho essencial aceitarmo-nos e aos outros, nas nossas vertentes positivas e negativas, compreendendo as falhas, e a respectiva humanidade de cada um. Mas uma aceitação passiva leva ao estagnar do ser: leva a que não sejamos suficientemente críticos em relação a nós mesmos de forma a crescermos contínuamente, e a influenciarmos positivamente a evolução dos que nos rodeiam. Defendo por isso uma aceitação crítica. Uma compreensão e respeito de cada ser humano na sua totalidade, com defeitos e virtudes, não só aceitando as falhas mais vulgares e logo mais facilmente toleradas, como as mais peculiares e difíceis de compreender, aliada a uma essencial crítica, que deve ter como único parâmetro obrigatório o carácter construtivo.

E onde é que pretendo chegar com isto?

Assim como uma parvoíce se torna dogma quando aceite por muitos, um defeito que seja comum à maior parte das pessoas torna-se normalidade, e assim mais difícil de detectar. Isto obviamente que não reduz a sua importância. Adoro observar... Considero a observação a maior das competências na área do crescimento pessoal e humano, porque é na observação que reside a capacidade de análise e de identificação das nossas falhas e dos outros. É ao observarmos que criamos a distância necessária a uma análise mais objectiva de nós e dos outros. É ao nos observarmos que aprendemos muito sobre nós próprios, e possibilitamos um autocrescimento constante. E é ao observarmos os outros que exponenciamos esse crescimento pessoal, podendo ainda intervir de forma construtiva no crescimento dos outros, se assim entendermos.

Todos diferentes, todos iguais? Indiscutível, na minha opinião. Não enveredarei por caminhos de defesa dos direitos humanos, defendendo a diversidade individual ou cultural paradoxalmente a uma igualdade de direitos. Falo sim de uma diversidade e de uma igualdade individuais, ao nível das mais variadas personalidades. Cada ser humano insere-se num mundo virtual próprio, tão vasto e complexo como o próprio universo – o ego. Cada ser humano nasce único, sofre a sua própria sequência de condicionamentos ao longo da sua vida, reagindo de forma diferente, e originando uma personalidade singular. Apesar destas diferenças ao nível da personalidade, podemos encontrar pontos convergentes nos padrões comportamentais dos seres humanos, regras que se aplicam a multidões, regras essas criadas e estudadas pela psicologia. Algumas dessas regras chegam a abrager um número vastíssimo, quase total da população humana. As pessoas têm todas personalidades diferentes, mas os seus processos mentais não divergem assim tanto, tornando os seus padrões evolutivos e reactivos previsíveis. É óbvio que toda a regra tem excepção, e esta regra não é excepção – há sempre pessoas que fogem ao padrão, tornando-se únicas, imprevisíveis e por vezes misteriosas aos olhos do espectador vulgar.

Na minha opinião uma das mais graves falhas dos seres humanos, e das mais comuns, é o egocentrismo. Temos tendência para sobrevalorizar a nossa existência, as nossas necessidades e desejos, os nossos sonhos e expectativas, a nossa vida no geral em relação à vida dos outros. Julgo que, e isto é apenas a minha humilde opinião, devemos procurar uma perspectiva mais equilibrada da existência, em que esses tais outros seres com quem partilhamos o palco da vida assumam uma maior porção de valorização da nossa parte.

Sou uma pessoa que tenta aceitar os outros como são mas, como disse sou também um defensor da “aceitação activa”, e também do não-conformismo. E, como tal, não consigo permanecer indiferente perante o egocentrismo do ser humano. Não sei se chegarei ao ponto de ficar triste mas, e apesar de tentar dia após dia aceitar o inevitável, sinto-me um pouco desiludido com a ilusão egocêntrica em que o Homem vive. Sou ser humano e não sou diferente dos outros seres humanos, tropençando também nessa armadilha do ego, mas apercebo-me da falácia humana através da observação, e por entre o suor do rosto e um sorriso de amor pela vida vou tentando corrigir o meu comportamento e construir pontes sobre os abismos do ego centrado em si. O fundamental é ter consciência de nós próprios e dos outros, e acho que quando isto acontece, entramos definitivamente na auto-estrada da melhoria. O problema reside na falta de consciência, na dormência de tantos seres perante si. Mas como despertá-los?

Poucos seres humanos ouvem verdadeiramente, e este é um dos tais abismos do ego de que falava. As pessoas escutam mas não ouvem. O tempo de discurso do outro ser humano é tempo de preparação para o nosso discurso egocêntrico... enquanto um burro fala, o outro baixa a orelha... baixa a orelha mas não ouve, só pensa no que vai dizer a seguir, no que vai partilhar com o outro sobre a sua própria existência. Claro que o outro muito provavelmente irá escutar, mas não ouvir – e assim se cria um ciclo.

As pessoas só querem saber de si. É uma triste evidência para o espectador atento. Obviamente que há excepções, e este é um dos casos em que a excepção devia ser a regra. As pessoas vivem tão centradas em si, que pouca ou nenhuma importância dão ao que os outros dizem ou fazem. E isto passa-se porque, e usando uma linguagem popular, não se enxergam. É a melhor expressão para descrever um estado de falta de consciência de si próprio e do seu comportamento. Um aprofundamento da nossa auto-observação evidenciaria o facto de negligenciarmos o que é importante para os outros, sobrevalorizando o que é importante para nós.

Como é tão bom encontrar uma ostra com pérola, uma estrela no céu nublado, uma pepita de ouro entre as pedras na peneira. Como é bom encontrar um ser que saiba ouvir... A maior parte das pessoas deve concordar comigo quando digo que é óptimo ser ouvido, ser escutado com atenção. No entanto, e apesar desta pretensão de obter interesse da parte dos outros em relação ao nosso ser, muito poucos o praticam em outbound – de dentro para fora! Se queres ser respeitado, respeita os outros... Se queres ser amado, ama os outros... Se queres ser compreendido e aceite, compreende e aceita os outros! 2+2 são 4, é assim tão difícil de compreender? Por entre todas as divergências com a religião cristã, “não faças aos outros o que não queres que te façam a ti” é sem dúvida um porto seguro. Se é tão bom ser ouvido, vamos verdadeiramente ouvir os outros, com interesse, e eliminar de uma vez por todas a sensação de estar a falar para um robot programado para falar dos seus transístores, do seu código base, e do seu sistema operativo! A comunicação exige linguagem, mas exige também um emissor e um receptor. Não existe comunicação sem receptor, por isso vamos de uma vez por todas começar a comunicar, e consequentemente a crescer!

Sim, eu sei... uma grande introdução e tanta divagação para chegar ao ponto fulcral da questão. Que ao contrário de abrir a mente para uma compreensão do essencial, não aborreça e faça afastar do mesmo – vamos dar aos outros aquelas coisas que mais valorizamos.

Quando a maior parte das pessoas é egocêntrica, torna-se vulgar e para muitos imperceptível, especialmente quando muitos desses muitos vivem cegos pela névoa do seu próprio egocentrismo. Abrir os olhos e observar o que se passa à nossa volta é essencial para viver de forma harmoniosa com a nossa comunidade humana. Dar aos outros o que queremos receber é o servir de exemplo, é o despertar da consciência alheia.

Vamos tornar-nos diferentes e criar uma nova igualdade, uma nova normalidade.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Demos Krathos

A democracia. Uma utopia materializada numa aplicação prática não tão utópica, por alguns criticada. Este número é, no entanto, progressivamente menor. Isto porque a democracia exige, na minha opinião, um certo grau de evolução humana, de evolução de mentalidade. Exige a compreensão da necessidade de igualdade ao nível da participação activa de cada cidadão na tomada de decisões relativas ao governo do país, da igualdade cívica e de liberdade.
Não digo que a democracia seja o melhor sistema político que poderá ser alcançado, apesar de a minha imaginação não me permitir visualizar uma alternativa melhor que a igualdade democrática. E concerteza que a democracia na prática se afasta imenso da sua perfeição (ou quase perfeição) teórica. Teoricamente falando, a democracia não tem falhas evidentes, especialmente a democracia directa. Ao contrário da democracia representativa, em que são eleitos pelo povo representantes que irão durante o seu mandato pôr em prática a vontade do povo (relembro que estou a falar do conceito teórico de democracia), na democracia directa, o povo participa directamente em todas as tomadas de decisão. Obviamente que isto exigiria um desenvolvimento tal, e uma vastidão física a nível tecnológico, que abrangesse todos os cidadãos, permitindo um voto à distância, em qualquer lugar e altura. Apesar de ser uma alternativa menos viável, julgo ser a mais justa.
Mas esta perfeição teórica do sistema democrático (directo ou representativo), pressupõe uma educação humana que alcance todos os cidadãos, de forma a que estes estejam aptos a usar o seu poder.
Não prática isto não acontece, o que associado à falta de meios para votação à distância, invalida a democracia directa. A democracia representativa torna-se a melhor opção, por ser mais viável, mas também a mais facilmente corrompível. A falta de consciência popular, e a eleição com base em preconceitos ou critérios falaciosos e irrelevantes, assim como a falta de obrigação no compromisso entre o representante e o povo, levam a que a vontade do povo acabe por nem sempre se reflectir. Mas, apesar de todas as falhas, a democracia continua a ser a ideia mais perfeita de sistema político que o Homem conseguiu criar, e julgo que, antes de criticar a sua utilização, dever-se-ia procurar formas de a melhorar.
E a única forma de a melhorar substancialmente, é melhorando-nos a nós e à nossa consciência, aplicando de forma mais consciente e verdadeira o nosso poder potencial e merecido.

domingo, 26 de agosto de 2007

Uma estrela ascendente

A mulher. Que ser maravilhoso temos nós meninos a sorte de ter como parceiras de coexistência. Um ser magnífico, que detém a chave da verdadeira forma de viver, com o coração, e vivendo uma vida vocacionada no sentido certo, o sentido humano. As mulheres são exemplos de perseverança e de força interior, pois sobreviveram, lutaram, e impuseram-se num mundo de seres que ousaram dar o seu nome à espécie. A subida da mulher foi mais tardia. Cresceu, mas sofreu sempre com a opressão masculina, e num mundo em que o homem julga reinar. Mas apesar do atraso na subida, a mulher brilha cada vez mais, e a sua subida é mais consistente e equilibrada... mais humana. A subida rápida do poder do homem terá uma queda rápida, enquanto que a subida inteligente da mulher lhe dará um longo reinado. Obrigado, mulheres, por darem côr e ternura aos nossos dias. Obrigado, anjos, por fazerem os nossos corações bater de amor por vós. Obrigado por servirem de exemplos de melhores humanos.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Crise de identidade global

A meditação é observação. É observação do nosso corpo, mas acima de tudo é observação da nossa mente, que leva à sua paragem. Quando, através da observação, ficamos a conhecer a totalidade do nosso funcionamento mental, cada parte do nosso ego, a mente para, porque já conheceu tudo e viu tudo o que havia para ver em si própria, e não se encontrou em lado nenhum. Há uma paragem quando concluimos que a nossa consciência obervadora é algo independente, que transcende a mente. Apercebemo-nos de que a identidade que julgavamos ter não é quem verdadeiramente somos... que a nossa verdadeira identidade apenas observa o que se passa em nós, numa espécie de sonho cujo despertar se chama vida. Com o auto-conhecimento atingido surge o sentimento de algo superior à mente, que observa. Quando se conhece algo na sua totalidade, é possível ter influência sobre esse algo. A mente, ao ser compreendida totalmente, fica à nossa disposição... do nosso verdadeiro Eu - da consciência. Quebra-se a identificação com a mente, desperta-se um estado superior de consciência, e a mente desce à posição de ferramenta à disposição da nossa identidade consciente.

Keep it simple

Os maiores êxtases da vida são sorrir profundamente, cantar livremente, dançar de forma liberta de medos, e amar. Dançar e cantar fazem a nossa energia entrar em perfeita harmonia. Sorrir canaliza a nossa força infinita, amar completa-nos. O canto afundou-se nas gargantas das pessoas porque os que dizem cantar foram a leilão, sobrevivendo apenas alguns bem-aventurados. O canto do ser comum seria assombrado aos olhos da opinião do povo, a sua música seria rasgada pelo olhar incisivo e crítico dos outros perante a falha. Deixou-se de cantar para buscar... para buscar a harmonia nas aguas de um rio que não tem mar, quando tudo o que é verdadeiro está na nossa nascente, uma oferenda da vida. Viver é cantar por amar, sorrir por dançar, e todas as combinações possíveis dessas quatro peças do nosso puzzle. Viver é sentir a capacidade de ser livre, festejar a cada segundo a sua simples e mágica existência, abrir a luz do coração à dança de toda a vida.

domingo, 22 de julho de 2007

Uma liberdade assustadora

A verdadeira liberdade pressupõe uma grande responsabilidade: a responsabilidade por tudo o que somos e tudo o que fazemos. No momento em que nos libertamos de todo o tipo de condicionalismos, e assumimos a nossa vida como totalmente nossa, não podemos atirar para ninguém e em situação nenhuma, a responsabilidade do que pensamos, dizemos e fazemos. Mas a verdadeira liberdade gera insegurança, pois afastamo-nos do conforto dos padrões pré-estabelecidos pela sociedade, que nos marcam desde que nascemos. Fomos condicionados e inseridos num grupo, ou grupos humanos padronizados, e de certa forma homogéneos, o que não exige grande esforço ou responsabilidade, bastando-nos seguir o rebanho para ter uma vida satisfatória, ou pelo menos tão satisfatória quanto a maioria. Falo de grupos religiosos, políticos, ideológicos, qualquer sistema de crença ou de pensamento de bases dogmáticas.

Quanto assumimos a nossa liberdade inata, quando nos libertamos das prisões conscientes e consciencializamos da inconscientes impostas pelo mundo onde vivemos, caimos num deserto inicialmente árido, sem bússola nem mapa. Entramos num mundo onde a nossa própria razão e o nosso próprio coração comandam. Agimos conscientemente e livremente, mas num processo que muito exige de nós, pois caminhamos por estradas nunca antes percorridas. Não seguimos a multidão – traçamos o nosso próprio trilho. E daí surge a insegurança, da incerteza de cada passo que damos. Cada passo é novo, e as consequências são por vezes incertas.

Entramos num mundo misterioso e único, pois descobrimos que o caminho pelos outros seguido, que seria sem dúvida a escolha mais fácil para nós, não é o nosso caminho, e que este tem de ser pensado e descoberto por nós constantemente.

Mas o processo de libertação exige grande coragem. Exige uma passagem árdua, do conforto do conhecido, para a insegurança do desconhecido. Mas esse desconhecido será o nosso maior aliado, na medida em que tornará a nossa vida numa aventura de descoberta constante de nós próprios e do nosso caminho a seguir, e permitirá um crescimento muito maior – quanto mais é exigido de nós, mais crescemos. Outra dificuldade de passagem à liberdade tem a ver com a relação sociedade-indivíduo. O amor da sociedade pelos carneiros é conhecido por muitos, e é indissociável do atrito que se gera entre as massas e os indivíduos “diferentes”. O igual, normal, vulgar, é aceite, e o diferente, peculiar, “estranho”, é de certa forma discriminado, rejeitado, ainda que muitas vezes de forma inconsciente. E aí reside a dificuldade de nos afastarmos do rebanho – o medo de rejeição. O medo de sermos discriminados, a preocupação com o que os outros pensam de nós e o medo de sermos olhados como estranhos, impedem-nos de sermos genuínos e livres.

Tomemos por exemplo um prisioneiro, encarcerado durante vários anos numa prisão, onde tem comida e dormida garantidas, sem que nada lhe seja exigido em troca, além do seu bem mais precioso – a sua liberdade. Perde todo o tipo de responsabilidade, passando-a para as mãos da justiça (involuntáriamente, mas não é essa a questão neste momento). Não são raras situações em que prisioneiros são libertados após muitos anos de prisão, quando o comodismo e conformismo eram tão fortes, e o hábito de falta de responsabilidade era tal, que a vontade de sair e voltar a integrar-se na sociedade era muito reduzida, se não mesmo nula. O Homem apega-se às suas prisões, desenvolve por elas uma espécie de carinho distorcido, pois elas assumem grande parte das suas responsabilidades. Falo tanto de prisões no sentido físico da palavra, como no sentido mental, dos condicionalismos. Libertar-se dessas prisões implica um esforço inicial muito grande, mas torna-se imensamente compensatório, proporcionando o máximo de felicidade, realização pessoal e crescimento interior.

Apesar de ser vulgar ouvir o contrário, a maior parte de nós prefere viver num estado inconsciente e preso, mas muito seguro e subjectivamente confortável, do que viver de forma verdadeiramente livre, e assumir a totalidade da responsabilidade da nossa vida.

Para ser um Indivíduo é preciso ter espírito crítico, de forma a identificar as prisões muitas vezes dissimuladas e subliminares, e ser corajoso e enfrentar a insegurança, a incerteza, e o medo de rejeição.

Presente versus Futuro

Somos educados para um tipo de pensamento orientado para o futuro... e a abundância de criatividade típica da infância vai sendo destruída, pela educação comum, originando uma perspectiva de busca, de desejo, orientada para objectivos, sonhos, que também origina grande parte das nossas ansiedades e frustrações. A criatividade advém de uma concentração intensa no presente, na acção presente, no momento. A absorção na acção leva um maior domínio da mesma, a uma maior canalização das nossas capacidades, e permite a criatividade. O distanciamento do nosso pensamento relativamente ao momento presente, deslocando-nos para o futuro, reduz a nossa concentração na tarefa, e logo a capacidade de ser criativo. Desde que nascemos que somos educados, por pais, professores, sociedade... a pensar no futuro, a orientar a nossa forma de pensar para o futuro. Temos de certa forma de sacrificar o momento presente para atingir determinados objectivos no futuro. Temos sem duvida de sacrificar o presente, pelo menos em termos de criatividade. E ao sacrificar o presente, sacrificamos também o futuro, pois quanto menos de nós dermos ao momento presente, piores seram os resultados no futuro. Temos de estudar PARA sermos alguém, temos de trabalhar PARA termos dinheiro... somos educados PARA qualquer coisa no futuro. É desvalorizada a pureza da acção, perde-se o valor intrínseco de tudo o que fazemos.

Isto leva ao assassinato da criatividade natural humana, que nasce connosco e está tão presente nos nossos primeiros anos de vida. Esta é também uma das grandes origens de preocupações, de ansiedades, e de frustrações nas nossas vidas. Ao orientarmos o nosso pensamento para o futuro, preocupamo-nos com situações futuras indesejáveis (reais ou fictícias), e desejamos que certas situações se concretizem mais rapidamente (ansiedades e desejos), o que quando não se verifica origina todo o tipo de frustrações.

Na minha humilde opinião, as crianças deviam ser educadas logo desde o início para uma maior vivência do momento presente. Deviam ser estimuladas a agir por agir, pelo prazer da acção. Deviam ser ensinadas a aprender pelo gosto de aprender, e pelo sabor do crescimento interior, e não visando constantemente objectivos futuros. Deviam ser reforçados valores como a busca de prazer no trabalho. O objectivo nunca deveria ser o dinheiro, mas sim a acção em si. Devíamos ensinar que o mais importante é descobrirmos a nossa vocação, seguí-la com determinação, e dedicarmo-nos profundamente à sua prática, pelo simples prazer de fazer o que gostamos. Obviamente que o dinheiro é necessário, e surgiria como efeito secundário de uma total dedicação a uma actividade que nos apraza.

Considero que a presença constante da ambição nas nossas vidas é um factor determinante de destruição da nossa felicidade e da realização pessoal. É importantíssimo que pensemos e repensemos a nossa vida, e estabeleçamos objectivos, que sirvam de faróis nos diversos oceanos da vida. É indispensável que saibamos para onde caminhamos, de forma a não nos perdermos, tal qual barco à deriva. Mas quando toca à acção, a nossa vivência propriamente dita, temos de possuir a capacidade de nos abstrair dos objectivos que estabelecemos, deixando-nos absorver pelo momento presente, dando assim o nosso melhor, e aumentando as possibilidades de virmos a atingir os nossos objectivos e sonhos. A nossa vida deveria alternar entre períodos de reflexão pessoal e definição de metas e estratégias, e períodos de total dedicação ao presente, atingindo assim um equilíbrio perfeito entre o presente e o futuro nas nossas vidas.

domingo, 15 de julho de 2007

Mitologia ou má interpretação?

Dizem os ensinamentos cristãos que quando se morre há dois destinos possíveis: o céu e o inferno. O inferno é para aqueles que foram pecadores durante a vida, e o céu para as almas pacíficas, altruístas e bondosas que por este mundo passam. A nossa conta do presente é saldada no futuro. Alguns crêem que o nosso gestor de conta é um homem velho e barbudo, outros que temos uma verdadeira equipa de consultores financeiros, desde brahma a vishnu, passando por krishna e ganesha.
Na minha opinião, céu, inferno e Deus são o mesmo... o mundo onde vivemos. Jesus assim o descobriu, tal como Siddhartha Gautama, mas esta descoberta dificilmente pode ser transmitida por palavras, e as más interpretações sucederam-se nas várias religiões.
O inferno é a terra de sofrimento onde vive a maior parte dos seres humanos, afogados em medo, angústias, ansiedades e frustrações. É uma terra onde a ilusão do ego oculta a paz e a harmonia naturais, subjacentes ao ser humano e ao mundo onde vivemos. Falo de uma tirania da mente, que nos escraviza numa ditadura anti natura.
O céu também está entre nós, ou melhor, dentro de nós. Ao contrário do que se crê, encontra-se num nível inferior ao do inferno, pois situa-se algures entre a rigidez mental e o coração. O céu é o retorno à paz natural. É a capacidade de se deixar absorver pelo momento presente de tal forma que o passado e o futuro deixam de existir. É conhecermo-nos a nós próprios de tal forma e com tal aceitação, que o amor pelo nosso ser transborda, atingindo todos os que nos rodeiam. É um estado de amor por toda a vida que nos rodeia, e de compaixão pelo sofrimento de todos os seres vivos. O céu é o cenário de liberdade que surge, quando os raios da nossa genuinidade afastam as nuvens do medo e da repressão. É conhecermo-nos profundamente, amarmo-nos profundamente e aos outros, expressarmo-nos de forma totalmente livre. O céu é aqui e agora.
O mesmo equívoco deu-se em relação a Deus. Várias interpretações para o mesmo. Sim, porque realidade há só uma. Alguns multiplicam essa realidade, originando o politeísmo, outros criam imagens de um Deus homem, de barbas. Tantas interpretações criou a mente humana, para algo que foi descoberto por poucos ao longo da história, mas não pode ser transmitido por palavras, sendo mal interpretado.
Se calhar Deus está mesmo em todo o lado, mas não nos devemos restringir a uma visão limitada da palavra, pois não conhecemos a intenção das pessoas que a pronunciaram pela primeira vez. Deus até pode ser energia, que realmente está em todo o lado, e dentro de cada um de nós.
Deus é a harmonia natural que rege a existência, a perfeição que corre nas veias universais, da qual o ser humano se afastou. Deus e o céu consiste no mesmo: o auge da existência, onde se situam todos os seres vivos, excepto o Homem - o aqui e agora. O divino consiste na capacidade de regressar à pureza e inocência que perdemos pouco depois de chegarmos a este mundo. Para atingirmos esse estado divino é necessária morte, mas não no sentido comum da palavra. É necessário, a todo o momento, morrer para o passado, deixando-nos fundir com o presente, com a magia e mistério da vida. Só assim purificamos o nosso ser e entramos em contacto com o sagrado dentro de nós, a criança há muito esquecida nas profundezas do nosso ser.
O inferno é o estado vulgar de existência humana, o céu, ou Deus, é o estado natural. Para atingir o nosso eu celestial, há que viver com o coração, dissolvendo o ego que nos aprisiona, e tomando consciência de que somos todos Um. Somos todos o mesmo.

domingo, 8 de julho de 2007

Postura Zen

Tudo na vida tem o seu valor intrínseco. Todo o ser, toda a parte da existência, toda a acção. Há que saber apreciar o valor de cada coisa independentemente de valores externos. Em termos de acção, há que agir bem por agir, agir sem esperar recompensa, deixarmo-nos envolver por toda a acção. Agir no presente, sem distorcer essa mesma acção com perturbações futuras... agir pelo simples prazer de agir, e de agir bem. Em termos existenciais, há que adquirir um paradigma de apreensão das coisas que nos rodeiam, em que apreciamos as coisas pelo que elas são, sem recorrer a comparação, originando uma avaliação mais justa e mais verdadeira.

Isto é Zen: absorção total pelo momento e pelo que nos rodeia, absorção alheia a interpretações.

Ethica

O que é a ética?
A ética é a arte de viver. É a disciplina da transformação do conjunto dos nossos dias neste mundo numa gigantesca obra prima. E como o fazemos? Simples, no entanto complicado.
Conseguímo-lo agindo de forma honesta para connosco, de forma coerente com quem somos, dentro dos campos da nossa liberdade, liberdade essa que termina onde a dos outros começa. É, assim, fácil de concluir que a ética não é uma arte puramente individualista. Parte do indivíduo, alargando os seus horizontes até a uma harmonia colectiva.
A ética pressupõe compreensão humana, colocarmo-nos na perspectiva dos outros, aceitando a importância de todas as suas necessidades e sonhos, virtudes e defeitos... Enfim, da sua humanidade. A ética é viver agindo bem, de forma a nos proporcionar realização e bem-estar, sem nunca interferir de forma negativa na realização e bem-estar dos outros. Ética é compreensão e tolerância, mas também integridade e transparência. É valorizar a força e nobilidade da acção. É a pureza da intenção.

6 biliões de estradas

A vida em toda a sua imensidão põe à nossa disposição uma infinidade de trilhos possíveis, dependendo das opções que tomamos desde o dia em que nos tornamos seres autónomos. Alguns desses percursos restringem-nos e reprimem-nos, outros proporcionam-nos alguma realização pessoal, e outros transformam a nossa vida num êxtase. Apesar de tantos caminhos se encontrarem à nossa disposição, o mais vulgar percurso de vida é, após um certo tempo, mimetizar, acomodar-se, e limitar-se a sobreviver. Tantas ideologias foram criadas, tantos sistemas de crenças, tantas filosofias de vida, e é sem dúvida mais fácil escolher algo que já foi criado do que criar, ou melhor, descobrir, a nossa própria visão do mundo e correspondente abordagem.
Que piada tem viver a nossa vida segundo o padrão dos outros? Cada ser humano é único, e quando segue um determinado grupo perde uma grande parte de si. Quando seguimos uma doutrina ou uma crença, somos limitados por uma cegueira que nos impede de expandir o nosso conhecimento e a nossa sabedoria. É mais fácil submetermo-nos às algemas dos condicionamentos, e aos sistemas de pensamento de outros. Isto além de exigir menor esforço, retira-nos o peso de assumir a responsabilidade de tudo o que fazemos e arcar com as consequências como seres livres e conscientes. A felicidade é uma expansão da chama única de cada um, e não podemos tentar construir a nossa felicidade atirando achas que não as nossas.
O desafio da vida é conhecer-se... conhecer-se profundamente, e agir como um ser único... A capacidade de discernir é fundamental na triagem de ideias e pensamentos, e no formular de uma filosofia própria e autêntica. O conhecimento das mais ínfimas arestas e dos mais recônditos meandros do nosso ser proporciona-nos uma sensação de segurança e liberdade tal, que planamos sobre a planície da vida, por um caminho nunca antes percorrido por outro ser humano, com um total amor por nós próprios e pelos outros, e uma total alegria e realização... a maior realização que o ser humano pode experimentar: ser, apenas... existir de forma livre e genuína.

domingo, 24 de junho de 2007

O puzzle criativo

A criatividade é o Evereste da inteligência humana. A inteligência não criativa lida com o conhecimento existente na base de dados mental, relacionando os conhecimentos entre si. A inteligência criativa toma por base esse mesmo conhecimento e inova, criando novas ideias e novos conhecimentos. A criatividade do intelecto é um tipo de inteligência puramente mental, racional e lógica, e é por si só uma criatividade incompleta. A criatividade intelectual complementa-se com o nosso lado emocional, o que leva a um grande evolução. O primeiro tipo de criatividade leva à vanguarda da física e da matemática, o segundo leva à poesia, à música, e a todo o tipo de artes.
Há quem defenda que possuímos algo além do corpo e da mente, uma espécie de consciência que poderá ser chamada de alma. Nós atingimos a harmonia e crescemos melhor como um todo se o fizermos de forma coesa - mente sã num corpo são -, e partindo do princípio que essa consciência "paramental", para além dos domínios da mente, realmente existe, temos também de a desenvolver, integrando-a numa tríade corpo-mente-alma.
Voltando à criatividade, e no caso de existir essa consciência que as culturas orientais defendem, na cultura budista ou zen, por exemplo, esta só atinge o seu auge quando esse estado superior de consciência é atingido. Quando o ser se completa a si próprio, quando o autoconhecimento é total e a verdadeira liberdade é atingida, a criatividade atinge o seu próprio auge, pois é um tipo de criatividade que provém de um estado de perfeita harmonia do ser humano como um todo, do perfeito equilíbrio da tríade corpo-mente-alma.
Temos de desenvolver o cerebro no seu conjunto, estimulando o cortex esquerdo e o direito com a mesma intensidade, para exponenciar o nosso intelecto, e temos de desenvolver e cuidar da nossa parte física assim como tratamos da nossa mental, para atingir uma certa harmonia como seres humanos. Da mesma forma, temos de desenvolver a terceira vertente do nosso ser para atingir a harmonia máxima e, em termos de criatividade, atingir o expoente máximo.
Quando se atinge o máximo potencial da nossa criatividade a realização é plena, pois atingimos o patamar mais alto da existência: a criação. E, acima de tudo, atingimos a criação de nós próprios, ou melhor, a capacidade de sermos nós próprios, únicos, contribuíndo obrigatóriamente com algo de diferente para este mundo.

Crítica: o cinzel do crescimento pessoal

Quando a nossa identidade é confrontada com uma crítica, muitas vezes a reacção é defensiva. O nosso "eu" sente-se ameaçado e riposta, encontrando uma explicação racional (ou julgamos nós) para os nossos pensamentos ou comportamentos. No mundo em que vivemos, no nosso ser, tudo se desenrola em função do ego, e tudo tem como propósito defende-lo de ameaças ou fortalecê-lo. O mesmo se aplica ao raciocínio, que para defender o "mestre" ego, usa todas as suas capacidades para manter a coesão do mesmo, originando muitas vezes ideias cegas, ideias fechadas ao crescimento por uma muralha construída com base num espírito não crítico e num ego fundamentalmente inseguro. A crítica abala a coesão do ego, e isto não pode ser permitido do ponto de vista do mesmo. O que o ego não compreende é que a pequena destruição originada pelo abalo crítico precede uma reconstrução que o torna mais forte e mais coeso.
Assim como Sebastião José de Carvalho e Melo transformou o terramoto de 1755 em algo benéfico, na medida em que originou uma cidade mais bonita, e uma baixa pombalina melhor estruturada, muitas vezes o crescimento necessita de uma destruição das ideias pré-estabelecidas, para que se dê a construção de outras mais fortes e coesas.
A aceitação da crítica é um elemento fundamental do desenvolvimento de um ser humano. Toda a crítica retém em si pelo menos uma pequena parte de verdade. Ainda que por vezes subjectiva, essa verdade nunca deixa de o ser, porque vivemos num mundo relativo, em que tudo o que julgamos ser incontestável e representar uma verdade absoluta é, no fundo, subjectivo.
Quando uma ideia vai na sua maior parte contra aquilo que acreditamos ser verdade, é obviamente muito mais fácil rejeitá-la por completo, que colocá-la na mesa cirúrgica mental, e usar o bisturi da consciência para tentar extrair a verdade inerente. Este é o tipo de pensamento que fomenta ideologias extremistas e crenças cegas. Esta não aceitação da crítica leva à rejeitação dessa tal parcela de verdade, e mantém-nos uma passo mais longe da sabedoria e do conhecimento pertinente.
É fundamental ser crítico em relação às críticas. Ser crítico é não aceitar nada como absoluto, não aceitar nenhum ponto de vista como incontestável. É contestar o óbvio imposto pela cultura e pela sociedade, mas é também colocar a hipótese de aquilo que nos parece ser falso poder conter verdade em si, e vice-versa. Para compreendermos esta subjectividade que impregna a vida, é importante conseguirmo-nos colocar sob prismas diferentes de interpretação de uma situação - o vulgar "colocarmo-nos no lugar dos outros"- ou, neste caso, crítica.
Resumindo, devemos ser críticos relativamente à própria crítica, mantendo a abertura, ou seja, não a rejeitando logo à partida, e tentando analisá-la da forma mais objectiva possível. É nesta análise objectiva que entra a capacidade de nos colocarmos sob a perspectiva das outras pessoas, pois fazendo-o conseguimos sair um pouco da nossa própria perspectiva (da nossa esfera pessoal, egocênctrica), e encaramos as situações de um patamar superior, mais objectivo. Se tivermos essa capacidade de "ver como outros veriam", a forma final como encaramos as coisas passa a ser uma soma da nossa própria interpretação com outras, originando uma visão mais vasta, mais aberta e flexível. Se todos fossemos montanhas à volta do vale da vida, este processo equivaleria a algo como conseguirmos subir outras montanhas para daí poder ver o vale, adquirindo um conhecimento mais completo e uma visão mais objectiva do mesmo.
A imaginação ou a visualização criativa, essencialmente parecidas, e que consistem na capacidade de criar imagens mentais, são ferramentas poderosas na adopção de perspectivas que não a nossa. Quanto mais desenvolvidas estas ferramentas se encontrarem, maior a capacidade de elaborar imagens mentais pormenorizadas, mais marcantes e facilmente memorizáveis.
Desenvolver a imaginação ou a visualização criativa leva a uma maior eficácia na adopção de prismas de interpretação diferentes do nosso, pois a construção desses prismas é mais elaborada e melhor estruturada. Estas ferramentas são, portanto, uma ajuda preciosa na aquisição de um conhecimento pertinente, ou seja mais objectivo e real, e o menos centrado no ego possível. Quanto mais perspectivas diferentes foram adoptadas e catalogadas nos nossos arquivos mentais, mais pertinente será o nosso conhecimento, para não falar num grande potencial de fortalecimento da tolerância e da compreensão, que têm também por base a capacidade de nos colocarmos segundo a perspectiva de outros.
Imaginemos um cubo gigante. Em frente a cada face do cubo uma pessoa. Mas o cubo é tão grande que nenhuma das pessoas consegue ver além da face com que se depara. O conhecimento do cubo que cada uma delas possuí é muito erróneo. Quanto mais perspectivas desse mesmo cubo forem adoptadas, melhor a percepção do mesmo e mais pertinente o conhecimento. Suponhamos agora que várias pessoas percepcionam uma situação através de uma lente colorida, em que todas as lentes têm cores diferentes e distorcem um pouco a percepção mas de forma ligeiramente diferente. Uma provoca aumento, uma redução, e por aí adiante. A pessoa que olha através de uma lente não compreende a forma de pensar de outra, e parte do princípio que a outra pessoa está errada e que a sua própria maneira de abordar a situação é que está correcta. No entanto, se essa mesma pessoa conseguir ver o mundo através de outras lentes que não a sua, começa a perceber que tudo é pelo menos um pouco subjectivo. E quando nos apercebemos que o número de lentes diferentes atinge os biliões pelo mundo fora, começa a forjar-se uma tolerância completa e forte.
Tudo isto para dar a entender como a criação de perspectivas diferentes da nossa habitual (através da imaginação e visualização criativa) proporcionam o conhecimento pertinente e também a tolerância.
Após alguma divagação e voltando ao assunto inicial: o desenvolvimento destas capacidades leva a um aperfeiçoamento da construção de diferentes visões e interpretações, e isto relativiza a nossa visão original, altera-a. O seu tamanho e importância mirram quando colocados lado a lado, e cada vez mais em pé de igualdade em relação a outras, originando uma forma mais sábia e flexível de ver e abordar o mundo. Quando a nossa forma de ver as coisas se encontra próximo do absoluto, em territorios egocêntricos, é tanto mais sobrevalorizada por nós quanto mais única for, e à medida que vamos compreendendo outras visões diferentes da nossa, a nossa visão vai se alargando e se fundindo com outras, tornado-se mais vasta e mais completa. Este tipo de abordagem é o mais propício à aceitação da crítica, pois abre caminho à verdade contida noutras formas de ver, neste caso e mais precisamente, noutras formas de nos ver.
Quando desenvolvemos este espírito aberto à crítica, estaremos a abrir as portagens da auto-estrada do desenvolvimento pessoal, esculpindo gradualmente uma personalidade mais forte, e desenvolvendo paralelamente a flexibilidade que nos garante mais crescimento e mais fortalecimento.

terça-feira, 19 de junho de 2007

Tao

"Existem muitas ilhas, mas todas se encontram no fundo do oceano... Fazem parte da mesma terra, do mesmo continente. O mesmo se passa com a consciência."
Osho

Tanta gente na rua...
Uma multidão separada por ilusórias barreiras egoicas.
A mente humana é o instrumento mais complexo e fascinante de que temos conhecimento. No entanto, comete um grande erro ao fazer-nos crer que necessitamos do ego, que a nossa identidade se resume ao "eu". O ego é o componente base da competição e de todo o tipo de atritos entre humanos, e um elemento destabilizador da harmonia natural.
A mente delimita fronteiras inexistentes, que a separam dos outros, fortalecendo a sua própria identidade. Essas fronteiras levam à noção de posse: de posse dos territórios da nossa identidade, de posse do nosso espaço interno e externo, que têm de ser defendidos daqueles que passamos a acreditar serem nossos adversários e constituírem uma ameaça para a nossa identidade. A mente resume a sobrevivência do ser à coesão e à subsistência da sua identidade mental, sendo apesar disso coisas muito diferentes: a nossa verdadeira identidade e a nossa vivência como indivíduos situam-se muito além dos domínios da mente, sendo possível manter uma unidade coesa, viver e ser feliz, sem distorções por parte do ego. É precisamente devido a este mal-entendido que a mente acaba por criar um universo, ou uma perspectiva do mesmo, no qual tudo gira à volta do bem supremo a ser defendido: a identidade.
Cria-se o ego, separando-se o "eu" e o "meu" de tudo o resto. Cria-se a identidade que é o nosso território, o nosso mundo, o nosso universo... Surge todo o tipo de medos de possíveis ameaças à integridade do nosso ego... E nascem os conflitos com os outros seres...
Quando a mente é parada, e um estado superior de consciência é atingido, o ego dissolve-se, assim como todas as suas fronteiras. O universo mental expande-se, atingindo a infinidade do cosmos, e deixa de haver uma identidade a ser defendida, assim como adversários que a possam ameaçar. O sentimento, dizem, é de fusão com tudo o que nos rodeia, de fraternidade para com toda a vida que nos rodeia.
Do ponto de vista lógico, é uma situação perfeitamente compreensível: se o ego é a estrutura mental que nos separa de tudo o resto, quando a mente é parada e este mesmo ego desaparece, a divisão entre o "eu" e o que o rodeia deixa de existir, e deixamos de sentir ou ter noção de qualquer divisão entre o nosso ser e o mundo. Sentimo-nos em união com os outros seres e, sentindo-nos parte de tudo, torna-se inconcebível agirmos de forma negativa para com os outros seres, para com a natureza: estaríamos a destruir-nos a nós próprios.

sábado, 9 de junho de 2007

Somnus Ambulare

Existirá cura para este mal chamado de sonambulismo? Não falo de cura a nível individual, mas sim de uma cura a nível global. Que poderá ser feito para despertar este mundo submerso em sonambulismo, quando a cura, o despertar, depende de uma vontade própria de transformação? O despertar depende da compreensão de cada um, e da coragem de se libertar dum pesadelo mascarado de sonho. O despertar não pode ser impingido... nada que seja verdadeiro e belo pode ser impingido. O despertar reside numa profunda transformação interior, que assenta num profundo autoconhecimento.
Na nossa vida, o nosso espírito pode percorrer 3 fases, separadas por transformações interiores. A primeira fase é o estado natural em que nasce cada ser humano: o estado de felicidade inconsciente. É a fase que vivem as crianças, num estado de pureza, inocência, alegria e amor, mas também de fragilidade, e quase desprovido de crescimento pessoal consciente. À medida que o intelecto se vai desenvolvendo, e os conhecimentos vão sendo adquiridos, o ser humano torna-se mais sábio - intelectualmente falando. Por outro lado, essa sobrecarga de conhecimento e essa complexidade de funcionamento geram um desiquilíbrio, que é o chamado "sofrimento" pelos budistas - a incapacidade de viver uma vida fluída, harmoniosa, simples, e no entanto realizada e feliz. Esta segunda fase - de infelicidade consciente - é essencial, pois sem o conhecimento e a complexificação das capacidades cognitivas, dificulta-se a obtenção de um estado de autonomia, harmonia para com os outros, e capacidade participativa a nível social/global. Apesar de ser uma fase essencial, não representa o fim da evolução, devendo ser seguida de uma terceira fase - a da felicidade consciente. Esta terceira fase é definida por um estado superior de consciência, e reune características das duas fases anteriores: contém em si uma pureza, alegria constante, amor e espontaneidade característicos da primeira fase, com um background de conhecimento e capacidades congnitivas adquirido na segunda fase. Cria-se um ser humano completo: sábio, conhecedor e autónomo, sem perder no entanto a sua sensibilidade, a sua capacidade de presenciar o constante misterio da vida e a beleza de todas as coisas, sendo espontaneo e criativo... sendo acima de tudo livre.
O sonambulismo é um doença que surge na segunda fase, no meio de uma hiperactividade mental, e tem por base a automatização inerente à mente humana. A mente humana, após repetir uma tarefa algumas vezes, automatiza-a, e passa a efectuá-la automáticamente, sem dispender muita atenção à mesma, dirigindo toda a atenção restante para um mar de pensamentos que nos afastam do momento presente. Daí dizer-se que a quase totalidade das pessoas vive na mente, vive afastada do presente, e nunca leva uma vida plena - uma vida desperta.
O esclarecimento tão defendido pela cultura oriental, em especial pelo budismo, também chamado de iluminação ou despertar, é exactamente escapar a esse estado vulgar de ausência. O Zen - do budismo Zen - é um estado de canalização da atenção para o momento presente, para o sentir e para o ser. Quando toda a atenção se encontra direccionada para o presente, para o que sentimos e somos, e para o que nos rodeia, não sobra atenção que nos permita perdermo-nos nos nossos pensamentos, que seria a única hipótese de nos afastarmos do momento presente. O Zen é por isso atingir um estado em que o nosso padrão de funcionamento deixa de ser um caudal de 24 horas diárias de pensamentos, para ser um estado desperto e atento quase 24 horas por dia (e mesmo 24, se for essa a vontade), cujas excepções surgem quando necessitamos da mente para comunicar, para aceder ao conhecimento adquirido no passado, ou planear o futuro.
Vou na rua todos os dias, e observo a quantidade de pessoas a toda a hora e em todo o lado, em stand by, em "sleep mode", a viajar por mundos inexistentes, deixando escapar o momento por entre os dedos que nem areia numa ampulheta - fugaz e sem retorno. Observo e penso... penso nas tantas vezes que me encontro na mesma situação, e no desperdício de vida que representa. Observo e decido, decido que vou fazer tudo para estar presente e desperto, para viver profundamente tantos segundos da minha vida quantos conseguir, deixando-me absorver por completo.
A única cura conhecida para este mal é a meditação. É uma cura tão natural quanto respirar, mas há muito esquecida. É uma cura que tem de ser procurada pelo enfermo, e aplicada pelo mesmo. Não pode ser impingida, só pode ser escolhida. Sonho viver num mundo em que toda a gente vive nesse estado de felicidade consciente, um mundo pleno de paz e harmonia, de amor e alegria, um mundo meditativo. Não sei se será um sonho plausível... Sei que a escolha é de cada um, e a minha já foi feita...
Quero estar presente e desperto... Quero viver plenamente e ser feliz... Quero ser livre...

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Um mundo indiferente

Como é possível fechar os olhos? Como é possível tal cegueira nos ofuscar uma visão do mundo atormentado e doente onde vivemos? Como podemos decidir não ver que a solução existe e está ao nosso alcance? Temos todos os recursos necessários para acabar com a fome e a subnutrição, com todo o tipo de desigualdades... Como podemos deixar-nos cegar pelo poder, pela ambição, pelo egocentrismo/etnocentrismo, e relegar para o subconsciente a responsabilidade de agirmos segundo uma lei cívica e solidariedade universais, de seguirmos uma ética de compaixão e amor pelos nossos irmãos? Que espécie somos nós, que valoriza o desenvolvimento tecnológico e económico desenfreado, em detrimento de um desenvolvimento humano harmonioso, global?
Seguimos um desenvolvimento fragmentado e incompleto, porque temos vindo a ser seres fragmentados e incompletos. O problema reside no monopólio da mente no mundo em que vivemos, e nos seus métodos controversos. A mente é apenas uma das partes do nosso ser, e durante século permaneceu mestre e senhora, escravizando-nos, e tornando-se a causa de uma infinidade de problemas. A mente humana necessita do ego, da sua identidade, e o poder e as posses fortalecem essa identidade, muitas vezes à custa do bem-estar dos outros. A mente deve ser reduzida à sua função de ferramenta racional e lógica, e colocada no contexto de um todo, não fragmentado, unificando o ser humano, e levando a um crescimento humano como um todo. O coração deve segurar o leme da vida, e a mente deve ser o servo que ajuda em todas as tarefas de lógica e comunicação.
O coração não precisa de posses nem de poder para fortalecer o ego, o coração não tem uma identidade para ser ameaçada por medos, medos estes que originam defesas que são mais ataques à liberdade dos outros seres.
Um mundo melhor é um mundo onde a mente submerge no domínio do coração, na consciência... É um mundo regido pela harmonia natural do universo, um mundo onde cada um se apercebe do seu papel no todo, e que a igualdade é o mais fundamental dos direitos, e o mais esperado dos sonhos: a igualdade de expressão do ser e da sua singularidade, a igualdade de liberdade, a igualdade de ser feliz.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

A utopia das utopias? Ou a verdade das verdades?

Nirvana...
Uma simples palavra, dotada da mais profunda das profundidades. É uma simples representação gráfica de uma verdade, ou suposta verdade, que contém em si uma sabedoria tão vasta quanto o universo. As palavras são, à partida, de certa forma ilusórias, pois ocultam o verdadeiro significado. São uma máscara, uma pele falsa de uma verdade complexa, completa e incognoscível.
Verdade há só uma... a realidade não é subjectiva... mas será apreensível? Cada ser humano vive aprisionado no seu mísero e infinito mundo subjectivo, cercado de erro e dúvida, a uma distância vertiginosa da realidade objectiva. Será possível presenciar essa utópica verdade? Ou será essa utopia uma verdade ao nosso alcance?
Nirvana... moksha... iluminação... Deus... esclarecimento... Zen... poderão tantas palavras querer dizer o mesmo? Nunca conheceremos o verdadeiro significado por detrás duma palavra.
Mas e o que representa essa verdade? O que é o nirvana?
O nirvana é ser. O nirvana é estar. É estar completamente presente, é canalizar por completo toda a nossa energia e a nossa atenção para o momento presente. A mente humana não funciona no presente, mas sim no passado ou no futuro. Analisa o presente tendo em conta a sua vasta base de dados, distorcendo-o e impedindo uma percepão pura. Vive perdida entre culpa, preocupações e ressentimentos do passado, e angústias, anseios, e preocupações futuras. Desvia a nossa atenção do momento presente, da verdade.
O nirvana representa a libertação de todos os condicionamentos sociais, pois estes residem na mente. Representa a libertação da dependência de tudo o que nos rodeia, gerando uma liberdade de ser e viver, que estimula o nosso carácter genuíno e criativo, a nossa capacidade de sermos nós próprios.
O nirvana é o reatar da ligação com a nossa criança interior, com a pureza e inocência perdida há muito. É a libertação de uma prisão inconsciente, proporcionando-nos um estado de objectividade total, em que olhamos cada segundo e cada átomo como se da primeira vez se tratasse - é a novidade constante, o reacender do mistério da vida.
A iluminação é um estado de colapso dos medos e energias negativas. É a criação de um paraíso interior onde cada flor que desabrocha emana o seu perfume com total liberdade, um perfume de amor e alegria. E quando o amor e alegria transborda, floresce a vontade de partilhar com os outros, e amá-los...
Eu acredito profundamente num estado superior de consciência. Um estado que ultrapassa a mente humana, racional, condicionada, e muito limitada. Não sei o que chamar a esse estado. Talvez o melhor será chamá-lo de um estado de "ser". A meditação é um provável caminho a percorrer para demolir as muralhas mentais, e atingir esse estado superior de ser. A meditação pára a mente faladora, e cria um novo estado de percepção apurada, refinada, límpida. A meditação centra as energias no presente, de forma abstraída do passado e do futuro. Não os elimina, passa-os apenas para o segundo plano. A meditação faz crescer a paz interior, um estado de serenidade inabalável. Esta serenidade é um rio, à borda do qual morrem todas as energias negativas vindas do exterior, e cujo perfume presenteia tudo e todos à sua volta com amor.
A verdade é falada por todo o planeta, por todas as religiões, sendo sujeita a constantes e infindáveis distorções. Será possível identificá-la por entre todas as verdades subjectivas? Ou tratar-se-ia apenas de mais uma verdade ilusória? Será o nirvana um estado utópico, criador de uma esperança sem fim, demolidora das inseguranças da vida e do medo da morte? Para que ter fé? Para que acreditar sem experimentar? É uma busca que, mesmo não dando garantias de atingir o sucesso, é por si mesma a maior representação de sucesso intrínseco. Cada degrau que se sobe proporciona a maior das alegrias e o maior dos crescimentos... e acima de tudo, a maior das liberdades.
É-me indiferente se o farol existe ou não, desde que a crença no mesmo nos faça navegar na direcção do crescimento. De qualquer das formas, acima da crença e da refutação, julgo encontrar-se o patamar da experimentação. Não considero o nirvana, Deus, o Zen... conceitos religiosos, pois a verdade não é religiosa, pelo menos no sentido que conhecemos. A verdadeira religiosidade reside no autoconhecimento, na harmonia interior e consequentemente exterior, e na liberdade. A verdadeira religiosidade encontra-se por detrás de todos os mitos criados pelas religiões humanas, e cresce em paralelo com a ética, mas uma ética supraconsciente - a ética de ser.

terça-feira, 29 de maio de 2007

Combatiente

Desde crió me conducía en el soñar
Toda era imposición
Desde niño controlaban lo que iba a pensar
Mataban la ilusión
Lo que no mata me fortalece hoy
Ser combatiente
Me fortalece hoy por hoy
Por hoy…

Y nunca quise ser igual
Nunca me latió ser del rebaño
Pensar tan diferente hoy
Hoy me tiene vivo combatiente
Soy combatiente
Nadie me va a parar
Soy combatiente
Nada me va a parar
Soy combatiente
Sobreviviente yo..
Lo que no me mato
Me fortaleció

Somos en serie fabricados
Como unos clones programados
Siempre imponiendo que pensar
Que joder que amar que pensar que pisotear

Soy combatiente nadie
Me va a parar
Soy combatiente
Nada me va a parar
Soy combatiente
Sobreviviente yo
Lo que no me mató me fortaleció

Su misión es lo que nos mata
La imposición
,lo que nos va a matar
Mejor es respetar
Al prójimo amar
Y ser un combatiente
Soy combatiente
Nadie me va a parar
Soy combatiente nada me va a parar

Soy combatiente
Sobreviviente yo
Lo que no me mato me fortaleció

by Maná

Na minha opinião esta música é um hino à autenticidade e à liberdade. Desde o berço que somos condicionados. Desde que nascemos que somos ensinados a pensar como as outras ovelhas do rebanho. Este processo de condiciomento começa na infância e prolonga-se por toda a nossa vida, sendo muito poucos aqueles que se apercebem do mesmo, combatendo-o, e ainda menos aqueles que se conseguem libertar.
Somos autómatos condicionados a reagir de forma mecânica, pré-programada pela educação que recebemos e por toda a sociedade onde nos inserimos. A chave encontra-se no espírito crítico, na capacidade de questionar, e de tomar as nossas decisões, de forma autónoma, não automática.
Ter espírito crítico é diferente de criticar tudo e todos. Ser rebelde é diferente de ser revoltado. Não devemos procurar destabilizar o que nos rodeia, mas sim procurar uma estabilidade interior, independente do exterior, em que a reacção condicionada é substituída por uma acção consciente, escolhida por nós e não pelos outros. Quando nos insultam, e nos irritamos, por exemplo, estamos a ser de certa forma manipulados pela pessoa que nos insultou. Ser livre é ser capaz de decidir em toda e qualquer ocasião, o rumo a seguir, o que decidir.
Apercebermo-mos dos condicionamentos a que somos sujeitos exige um grande trabalho interior, mas a recompensa é de valor inestimável: segurarmos o leme e estabelecermos um rumo totalmente decidido por nós, com toda a confiança, com toda a liberdade.

A ideia não é ser "do contra", mas sim, através de uma observação atenta, conhecermo-nos, e seguirmos a vida que nos realizará, não uma definida pela sociedade onde vivemos. O espírito livre não conhece nenhum tipo de lei. O espírito livre é aquele que deixa desabrochar a flor dentro de si, é aquele que flui como o rio, com serenidade e independência.

No fundo, "Mejor es respetar, Al prójimo amar, Y ser un combatiente". O verdadeiro combatente da vida luta para ser livre, genuíno, mas luta de flor em punho. Luta para ser quem é, amando e respeitando os outros e as respectivas liberdades.

sábado, 26 de maio de 2007

Sonhar para vencer

Podemos dizer que temos dois tipos de sonhos, segundo uma perspectiva invulgar. Podemos sonhar a dormir, ou podemos sonhar acordados. Durante o sono subconsciente, não temos controlo sobre aquilo em que pensamos, e então o conteúdo pode tanto ser positivo como negativo, atingindo a nossa criatividade o seu expoente máximo, além do racional. Quando sonhamos acordados temos mais consciência, mais controlo sobre os nossos pensamentos, e então podemos escolher pensar no melhor possível. Claro que não digo que somos todos optimistas e felizes, digo apenas que todos têm os seus sonhos acordados. Pensamentos de situações perfeitas, em relação às mais possíveis vertentes da vida. Os chamados "sonhadores" são aqueles que dedicam uma parte considerável do seu tempo a sonhar acordados. São as pessoas criadoras de utopias, pessoas que anseiam por mundos perfeitos, e vêem o melhor em todos os seres humanos. São os forjadores de sonhos e muitas vezes realidades.

Os sonhadores são pessoas que empurram a humanidade em direcção ao seu auge, ao seu pleno desenvolvimento, desde tecnológico e científico a, mais que tudo, humano. São os arquitectos e os impulsionadores evolutivos, que avançam cada vez mais rápido na direcção da inatingível perfeição.

É incomesurável a força da presença do sonho na mente humana, é um elemento essencial da evolução humana perfeita.

Em busca da liberdade...

Olho o horizonte e sonho...
Sonho com um dia em que o meu espírito solte por completo todas as amarras de uma escravidão subtil que nos aprisiona. Escravidão que nos subjuga a um patamar presque humano, um patamar onde o nosso brilho especial e único se dissolve entre tantas outras estrelas, formando uma constelação de espelhos humanos, que se refletem uns aos outros, num mimetismo social tão indesejável. Refiro-me ao processo social que, repleto de condicionamentos, nos reprime, de supernovas a cintos fragmentados de asteroides, ocultado o tesouro fantástico que cada um de nós esconde dentro da sua alma.
Um espírito liberto, é um espírito que não vive na tirania da mente, cuja luz dissolve as trevas mentais. Um espírito assim vive num estado em que o medo não é conceito, em que nenhum mal subsiste. Todo o mal impulsionado na direcção de outro ser humano tem por base algum tipo de medo, em grande parte o medo do enfraquecimento do ego, e quando este medo desaparece toda e qualquer necessidade de ser incorrecto para com o nosso irmão humano desaparece, o eu é livre. Daí a relevância da meditação para a criação de seres mais humanos, dentro de quem reina a paz e o amor: a meditação põe um travão na mente até que esta se dissolva sob os reinos da alma, e quanto a mente e o respectivo ego desaparecem, não há medo, pois não há identidade para ser ameaçada, e o ser humano sente uma pureza tal, que cria uma harmonia à sua volta.
Quero ser um espírito que habita o reino do coração, onde imperam a paz e o amor. Um espírito que não sente nenhuma espécie de repressão, consciente ou inconsciente, emanando uma luz tão forte e no entanto tão ténue, ao ponto de não ofuscar a luz de nenhuma das outras estrelas. Quero ser um espírito que ama a tudo e a todos. Que ama as maravilhas e perfeições da natureza, que consegue ver o sagrado em tudo o que o rodeia. Que tenta viver ao máximo cada gráo de areia da ampulheta vital, sem nunca esquecer a majestosidade de cada irmão seu. Nunca o serei, a distância é infinita, mas julgo válido o esforço. Encontro-me no degrau 0 da escala da perfeição. Sou um humano como todos os outros, que têm milhares de defeitos, conhecidos ou desconhecidos, e comete muitos erros... afinal, errare humanum est. Apenas gosto de dedicar algum do meu tempo de introspecção a imaginar imagens bonitas e perfeitas, porque me dá grande prazer observá-las e, acima de tudo, sinto o grande prazer do insignificante mas muito gratificante crescimento pessoal, luz do perfeito crescimento humano.
A utopia é uma idealização, a criação de uma imagem de perfeição. E não será melhor para a realização dos nossos objectivos, termos farois mais brilhantes, mestres mais sábios? Acreditarmos numa utopia é sermos capazes de acreditar numa situação praticamente impossível de alcançar, dando mais de nós para a mesma alcançar, com mais motivação. Eu acredito que toda a gente tem todo um potencial de compreensão da beautitude presente em si e nos outros. Quantos mais acreditarem na utopia, mais darão o melhor de si, para que progressivamente nos possamos apelidar de espécie. Sonho com uma utopia que acredito promover um mundo humano, um mundo natural, um mundo perfeito.
E o rio que alimenta este oceano utópico é o espírito, não no seu estado aprisionado pela ditadura da mente, mas no seu estado de libertação total. Acredito que vivermos mais com o coração, sermos mais genuínos, e amarmos e compreendermos os outros, devia ser a única forma de vivermos. Admito que é apenas uma das muitas verdades, mas é a que julgo digna de ser escolhida - uma vulgar opinião.