domingo, 29 de junho de 2008

Os ilusionistas

Para começar, o que é o pensamento?
O pensamento é o processo de associação de ideias, com base num conhecimento pré-existente. Relaciona ideias com base num conjunto de pressupostos (crenças, valores, etc.). Esse conhecimento é forjado pela educação, pela cultura, pelas regras e padrões sociais, e define a forma como pensamos. O pensamento nunca é livre e nunca é objectivo, é extremamente rígido. Acaba por ser uma fenómeno de associação de ideias que não é nosso, mas sim do resultado 'evolutivo' de um embate de ideias ao longo da presença do Homo Sapiens Sapiens no oasis terrestre.
As fronteiras do pensamento definem as fronteiras do comportamento e as fronteiras da vida (ou antes, da nossa visão da vida), e esse modelo imposto do exterior limita a forma como experienciamos a realidade, de uma forma que faz surgir um fosso abismal entre a essência da realidade e essa rede complexa que forma aquilo que julgamos ser a nossa identidade (aquilo a que Kant chamaria de incognoscibilidade do real).
O pensamento não é a nossa identidade, não somos nós, é apenas o repositório de todo o lixo e entulho incutido pela chamada educação, que acaba por ser uma deseducação que impões limites ao nosso espírito. David Hume estava certo quando disse que o sentimento de Eu derivado das ideias (da sua associação) é um sentimento ilusório, pois a nossa verdadeira identidade é a nossa essência imutável, a consciência que se mantém desde que surge o primeiro sopro de vida dentro de nós até o suspiro do relaxamento final.
A sociedade pensa através de nós, e esse fenómeno compulsivo e constante de pensamento leva à criação duma identificação muito sólida e enraizada com esse mesmo pensamento, que nos leva a olhar tudo o que nos rodeia através desse prisma socialmente condicionado: olhamos tudo através dos valores instituídos. A nossa relação com os outros torna-se uma constante comparação entre tudo o que nos rodeia e aquilo que a sociedade tem definido como 'bom' ou 'mau'. E isto leva a que não consigamos experienciar nada directamente e de forma pura, nem aceitar e valorizar as coisas pelo que são, em vez de as avaliar pela distância a que se encontram do que está definido como 'certo' - está é a grande consequência da tirania do pensamento ao nível da qualidade da nossa experiência.
À nossa volta tudo é belo e tem um valor intrínseco, e não podemos detectar esse valor se estivermos sempre a comparar com algo (com outra pessoa, com um ideal, etc.). E o pensamento é a névoa vinda da sociedade que deturpa a nossa percepção e leva a esse afastamento da beleza da vida. Mas a raiz dessa influência negativa não vem, em última instância, da sociedade. E porquê? Porque a sociedade não existe, é apenas um conceito abstracto sem concretização material.
Esse problema tem a sua origem na própria mente e no próprio pensamento. Este, por ser automático e condicionado pela experiência, assume o controlo da nossa vida (percepções e acções) de forma inconsciente (não num nível inconsciente inacessível, mas num nível quase consciente). A única forma de ultrapassarmos este problema da existência humana é através do autoconhecimento e da consciencialização desses processos automáticos. A chave está na compreensão do nosso pensamento, no conhecimento da nossa mente, e na transcendência dessa mesma mente e desse pensamento.
Quando partimos do inconsciente rumo à consciência, a névoa do pensamento dissipa à medida que é compreendida... E aí há a hipótese de se conseguir um relance da vida e da realidade. Aí podemos começar a ver as coisas cada vez mais como são, e cada vez menos como 'deviam ser'.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Eu sou, tu és, todos somos

Vivemos num mundo de relações instáveis, num mundo onde é vulgar encontrar relações que se afundam nas profundezas dum mar escuro e infestado de medos, afastando-se do ar fresco da amizade, da luz do amor, da paz...
E o grande problema, na minha opinião, é que somos seres doentes, e um ser doente não tem a capacidade de construir algo tão belo como teria se fosse saudável - neste caso uma relação com outro ser. Quando falo de doença, não me refiro a uma doença física, ou a uma doença mental, mas mais a uma doença espiritual. Claro que quando todas as pessoas são doentes da mesma forma, a doença passa a ser a sanidade, passa a ser a saúde. Tendemos a encarar os desvios como algo que precisa de ser corrigido, de forma a se assemelhar mais à média. E tendemos a encarar o vulgar como normal, e aceitá-lo. A nível físico atingimos um grau de relativo bem-estar (isto para não falar nas grandes disparidades que encontramos pelo mundo fora); a nível mental a nossa insanidade é considerada normal, porque somos todos insanos, e porque escondemos a nossa insanidade para fazer uma sociedade resultar, e vamos sobrevivendo como espécie... mas será que tem mesmo resultado? Olhemos à nossa volta...
Portanto, abandonando essa visão comum, de que o que é partilhado por todos é normal, vamos adoptar uma visão mais objectiva do que considero ser um problema.
Vivemos numa grande instabilidade interior, constantemente num grande tumulto, numa desintegração extrema. Só que para nos apercebermos destes nossos problemas exige-se uma profunda auto-obervação e autoconhecimento, mas o mais alheios possível à influência cultural. Se olharmos pelos olhos da sociedade vamos ver algo normal, porque é igual à maioria. Se olharmos de uma forma mais transcendente vamos ver algo que precisa de ser curado. Este algo passa facilmente despercebido, porque exigem um olhar profundo.
De que falo então...?
Falo de todas as barreiras psicológicas que deturpam o nosso espírito. De todas as formatações que impedem a exteriorização do nosso ser (vulgarmente chamadas de Superego). Essas limitações, que no fundo são auto-impostas (ou permitidas por um estado passivo e inconsciente) impedem-nos constantemente de mostrar aquilo que temos dentro de nós. Temos medo de fazer má figura perante os olhos dos outros, de ser considerados estranhos, de ser de certa forma 'rejeitados', no geral temos medo de qualquer reacção negativa por parte dos outros. E seguir aquilo que é a regra aproxima-nos da certeza de sermos considerados normais, afastando-nos no entanto dum estado interior consolidado. Temos medo do que nos possa acontecer no futuro, temos medo do que nós irá acontecer no futuro que nos vá causar dificuldades, temos medo do que nos aconteceu no passado (falo de todos os acontecimentos negativos que nos marcam e por vezes continuam a atormentar), temos medo de morrer... é um sem fim de facetas de um medo que ensombra a natureza do ser que temos dentro de nós.
É a este medo generalizado que eu chamo de doença. No entanto acredito que esta doença tem uma cura. Só que para o desespero (no melhor dos casos, porque isso significaria uma vontade de melhorar), conformismo ou negação daqueles que buscam a felicidade e auto-realização no exterior, este cura não pode ser conseguida através de nenhum especialista, de nenhum auxílio externo. Esta cura, que é uma auto-cura, só funciona se nos conhecermos, conhecendo assim aquilo que tem de ser enfrentado.
Tudo isto para chegar à seguinte conclusão:
Não podemos construir um castelo sobre areias movediças. Descontextualizado? Não. Não podemos construir nada sólido sobre algo que não seja sólido também. Não podemos partir numa jornada de compreensão dos outros, se não nos compreendermos a nós próprios. Não podemos partir numa aventura de amar alguém, se não nos amarmos a nós próprios. E aqui está a chave para o problema das relações: a falta dessa integridade interior, para que possamos partir para o desafio de uma relação com outra pessoa. Um ser instável interiormente, um ser doente, não consegue relacionar-se de forma pura com outro ser, consegue-o apenas duma forma superficial e egocêntrica. Antes de iniciarmos uma dessas aventuras de amizade ou amor, devemos preparar-nos para a longa viagem. E aqui não se trata de nos munirmos de provisões para o caminho, mas sim de de nos construírmos como seres unos, íntegros, sãos, o que depois se reflectirá na relação. É fundamental deixarmos de focar o exterior como causa dos nossos problemas, temos de focar mais aquilo que mais está ao alcance de ser trabalhado, e que neste caso é aquilo que mais precisa de ser trabalhado: o nosso ser interior.
Quando partimos para uma relação sem preparação (o que também é importante ao início, porque nos dá aprendizagem, nos permite mais tarde melhorar - embora muitos se recusem em aprender) os conflitos estão destinados a acontecer. Um ser doente junta-se a outro ser doente, e a doença multiplica-se. Dois seres tão pouco consolidados fazem com que uma relação desmorone tal qual castelo de cartas. Dois seres instáveis constroem relações de posse, de ciúme... no fundo relações abaladas constantemente por diversas facetas do medo.
Quando partimos para uma relação após o devido crescimento pessoal (atingiremos alguma vez um patamar 'suficiente'?), há a hipótese de se criar um espaço belo de troca sem agressividade, de liberdade. Pode cultivar-se um jardim onde muitas vezes floresce a amizade e o amor.
O mundo em que vivemos é feito de relações, e vale a pena mais uma vez enfatizar que a única forma de mudar o mundo é mundando-nos a nós próprios, porque o mundo não pode ser mudado directamente - o mundo é uma abstracção. O mundo é constituído por biliões de relações, e nós só nos podemos mudar a nós nessa relação constante. O mundo não pode ser mudado, e não devemos tentar mudar o próximo, porque não temos esse direito, e porque só o outro se pode mudar a si próprio. Podemos sim, abrir uma janela na sua mente e no seu espírito, uma janela para a mudança... e se esse próximo optar por colocar a cara de fora da janela e inspirar a doce fragrância do crescimento pessoal, pode ser que decida dirigir-se para a porta, transpô-la, e relacionar-se com o mundo.
E se compreendermos isto e mudarmos, já o mundo terá melhorado, já a relação com o outro terá mudado, e já o outro terá consequentemente mudado.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

The silence...

"There is a pleasure in the pathless woods;
There is a rapture on the lonely shore;
There is society, where none intrudes,
By the deep sea, and music in its roar:
I love not man the less, but Nature more..."
Lord Byron

Há um profundo prazer que paira no ar que inunda os caminhos ainda não trilhados pelo Homem; Há uma felicidade extrema no percorrer dum caminho nunca percorrido, um caminho de mistério, desprovido de ambição, desprovido de um objectivo além do próprio caminhar. No deambular sem busca está a paz, na aceitação do desconhecido está a aventura da vida: o beijo constante da felicidade.
Há um êxtase na costa solitária, o florescer de um silêncio que só pode ser atingido quando o Homem atinge a integridade de conhecer-se e aceitar-se, derivada da capacidade de estar apenas consigo, livre.
Há a sociedade, da qual o prazer profundo e o êxtase se afastam. Há essa sociedade, cujas amarras prendem a consciência do Homem e removem a sua liberdade. Há todas essas regras vãs, todas as normas fúteis, todas as leis ocas que destroem a espontaneidade do Homem. Toda esse rede burocrática moral, social, cultural, confunde e impede de ver a derradeira lei: a lei do amor. E com o amor vem o respeito, a compreensão, a paz e a justiça. Vem uma aceitação do outro em todas as suas diferenças, por mais diferentes que sejam, um respeito pelo seu ser.
O amor é natural, o amor é a natureza, é o regresso de cada ser vivo, de cada átomo, ao seu papel de igualdade perante tudo o que o rodeia. Se somos iguais respeitamos e aceitamos; se aceitamos e sentimos que somos aceites indiscriminadamente, somos livres; é natural...
Na gélida brisa por entre o ar rarefeito e o silêncio das grandes montanhas. Voando sobre os verdejantes vales, percorridos por rios de água pura e cristalina, e riachos que cantam o amor. O desembocar num mar vasto e profundo... Aí está a felicidade. No abraço constante desse mesmo mar, cuja espuma acaricia a areia, compondo uma sinfonia que desperta a paz dentro de nós. No brilho das folhas que dançam ao sabor do vento. No infinito de amarelos, vermelhos e laranjas que emana um pôr-do-sol... Aí está a felicidade. A harmonia desse estado natural e neutro desperta em nós um silêncio interior.

Não gosto menos do Homem, mas mais da natureza.

sábado, 15 de março de 2008

Unity

Que bom é entregarmo-nos totalmente ao momento, sem receios nem inibições. Que extasiante é comunicarmos com o próximo, sem medo, fundindo as nossas almas. São tão raros os momentos em que se vivencia tal liberdade. E porque? Porque é tão difícil sermos apenas nós próprios? Porque é tão difícil sermos transparentes, autênticos, sinceros, genuínos, livres... Porquê tanta dificuldade em transpor as barreiras invisíveis, ilusórias, do medo?
Quanto mais conhecemos as camadas mais profundas do nosso ser, quanto mais sedimentamos, quanto mais nos integramos, solidificamos e condensamos, maior é a coesão. E quanto maior a coesão, maior a segurança. E quanto mais seguros somos, maior a protecção contra a erosão das pressões sociais. O escudo do nosso auto-conhecimento reflecte os raios do medo de volta...
Mas de volta para onde?
Esse medo não provém do exterior, mas sim de dentro de nós, e somos nós que permitimos o crescimento dessa erva daninha interior. A própria pressão social cresce e fervilha dentro de nós, não é exterior, é ficção. A nossa necessidade de nos sentirmos seguros e integrados leva-nos a copiar os outros e aliar-nos ao rebanho, moldando o nosso ser. Essa necessidade constante de ajustamento é o medo profundo que nos limita permanentemente e nos impede de sermos transparentes. E essa fricção eterna entre o que somos lá no fundo e o que julgamos ter de ser para nos adaptarmos e não sermos rejeitados... essa pressão é um fardo gigantesco que cada ser humano carrega ao longo da sua vida. Não admira que não consigamos ser verdadeiramente felizes, profundamente e constantemente felizes, quando vivemos em constante (apesar de inconsciente) esforço.
Será possível solidificar o nosso ser a tal ponto, que nos tornamos livres de sermos quem já somos? Será possível fazer a vida pulsar com tal intensidade nos nossos corações, que se cria uma barreira que não é uma barreira, mas sim uma ponte. É uma barreira porque nos protege de nós próprios, das limitações que nos auto-impomos, do medo... mas é também uma ponte. É uma ponte para os outros, uma porta para o amor, uma janela que se abre para a vida e dá a conhecer o céu da liberdade.

segunda-feira, 3 de março de 2008

My plastic heart cannot love

O meu amor é como um rio. Um rio tão vasto cujas margens se encontram fora do alcance de qualquer olhar, tão extenso cuja foz se encontra a um milhão de anos-luz da nascente. A força da corrente possui em si a força de mil paixões, e a vida brota dentro das suas águas. Mas o rio é travado por uma barragem, e a barragem é o medo. O medo é essa barreira que transforma o rio numa energia diferente, transforma o amor em algo que muitos chamam de amor.
Mas o verdadeiro amor apenas existe quando o rio atinge a eternidade do oceano. Apenas quando o rio se abre para o mar, e se relaciona com o todo, com o próximo, existe amor. O meu coração é a nascente de um rio chamado amor, e esse rio é do tamanho do universo. A energia desse rio pulsa continuamente e pede para eclodir. Mas falta a fórmula, a chave, que liberta o coração das garras do medo, que fará o meu ser explodir numa supernova infinitamente brilhante, com um leque de cores inimaginável, e um aroma adocicado a paz e liberdade.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Sem título

Sonho com um estado de liberdade total. Um estado onde a dor de existir dê lugar à compreensão da felicidade inerente à vida. Um lugar onde o pensamento surge... mas não predomina, pois fá-lo o coração. E o pensamento presente é incondicionado, quebra as amarras de todos os medos humanos, e permite a expressão total do ser, livre...
Sonho com uma vida onde toda a falsidade se desmorona, e onde no simples facto de transparecermos de forma límpida aquilo que somos reside a realização das realizações.
Mas com a maior das liberdades, vem a maior das responsabilidades. E com a liberdade de ser, vem a responsabilidade de ser realmente livre. O que implica a responsabilidade de nos desapegarmos... A capacidade de, após uma entrega total ao momento presente, nos deixarmos morrer para o passado, para o que não é real. Tornamo-nos assim independentes de tudo, e o nosso estandarte passa a ser o presente.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Reflexão

Muitas batalhas o Homem trava nas planícies da vida...
Mas a maior das derrotas é sem dúvida abdicar de si próprio.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Os idiotas

Somos seres pensantes, disso não há dúvida. Questiono-me todos os dias de que nos vale esse potencial no que toca ao nível mais fundamental da vida. Claro que não me refiro ao nível da aquisição e melhoria do conhecimento, nem ao nível de algumas formas de comunicação superficiais como as que utilizamos hoje em dia. Refiro-me ao nível das relações. Ao nível das relações com aquilo que nos possuímos - ou nos possui -, ao nível da relação com aquilo de que fazemos parte - a natureza -, e ao nível das relações com os outros - aquilo que faz de nós humanos. As relações dão sentido à vida, e a vida é feita de relações.
O pensamento é uma ferramenta sofisticada e complexa, de enorme valor, que nos permite através da aquisição de conhecimento melhorar o nosso bem-estar exterior. O pensamento leva a uma melhoria da nossa vida física, o que concerteza abre caminho a um bem-estar mental ou espiritual. No entanto, de nada nos serve ter a porta aberta se não a atravessamos.
O pensamento permite a existência da linguagem, que possibilita a transmissão de conhecimentos, e a acumulação de todo o tipo de informação acerca de nós próprios a um nível material, e um sem fim de técnicas que nos permitem embelezar a vida, através da pintura, da música, da poesia. No entanto, não me parece sábio transformar esse acessório que é o pensamento numa obsessão.
Acabamos por viver num mundo de ideias que chamamos de realidade. Como seres pensantes e simbólicos, criamos e copiamos ideias, que servem de orientação ao nosso percurso de vida, às nossas decisões, ao nosso pensamento. Os mais empenhados dedicam-se a um processo de polimento dessas ideias, até que se tornem ideais. Mas as ideias deturpam a visão, e os ideais destroem a realidade. Devemos ter muita cautela com a adopção de ideais se queremos melhorar a realidade, pois ao olhar o mundo segundo um prisma idealista não o vemos como é, vemos como gostaríamos que fosse, e ao nos recusarmos a aceitar a realidade como é, nunca a poderemos mudar.
Vivemos constantemente de acordo com padrões de pensamento estabelecidos por outros e aceites por nós, por vezes aprimorados por nós, e o seguimento contínuo desses padrões limita a nossa forma de encarar o mundo e abordar a vida. Um político abre os olhos e vê: comunistas, democratas, socialistas. Um religioso abre os olhos e vê: católicos, hindus, ateus. A ideia que eu adoptei como minha, contra a ideia que tu foste formatado para aceitar como tua. Eu fecho-me na minha ideia, tu fechas-te na tua ideia. Eu olho para o rótulo que criei de ti, e tu continua a ser preconceituoso, por favor.
E no meio disto tudo, onde está a capacidade de ver o ser humano por detrás das ideias? Se eu me assumir como materialista, recuso-me à possibilidade de existência de algo não material. Se for racionalista, não aceito nada que não possa ser validado pela razão. E por aí adiante...
Deixemo-nos de ismos e de istas... cada ideal ou crença fecha uma janela para a realidade da vida. Cada padrão que assumimos para guiar o nosso pensamento distorcerá a nossa capacidade de encarar a vida como ela é: misteriosa, imprevisível... e impedir-nos-á de viver da forma mais plena: momento a momento.
Dizem que somos inteligentes, e dizem que somos conscientes. Mas todas essas capacidades, de nada nos valem se continuarmos a perder-nos entre o nevoeiro das ideias pre-concebidas. Tudo se resume a uma questão de preconceito. Mas não preconceito no sentido vulgar da palavra, e sim no sentido mais puro - olharmos e acharmos que sabemos porque já tínhamos pensado e decidido que assim era.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Conclusão

O que é a idade?
Será sinónimo de envelhecimento? De crescimento? De maturidade? De sabedoria?
Esse contador genético e cronológico do nosso ser não vai além das camadas superficiais corpóreas. O tempo passa, mas a vida não passa. A vida encontra-se eternamente presente, à frente dos nossos olhos, em frente ao nosso coração. Quando temos essa capacidade de abrir o nosso ser à constante vida à nossa volta, o envelhecimento pára. As células crescem a morrem, mas a mente e o espírito imortalizam-se e ganham uma força... uma forma interminável de viver, de absorver cada segundo da dádiva que nos rodeia...
O tempo é um indicador de crescimento ao longo da aventura da nossa vida. É o amadurecer do espírito eternamente jovem e sedento de sentimento. Que aprendizagem é a vida! Que inspiração é viver!
À medida que o corpo cresce na dimensão do tempo, o espírito ilumina-se na dimensão intemporal... busca... e aprende... a aproxima-se do berço da vida.
Essa aprendizagem trás-nos a sabedoria de tudo o que é mais importante no universo... o amor. A ética de emanar amor, amizade, carinho. A capacidade de abrir o coração ao retorno desse mesmo amor, dessa mesma amizade. A realização de nos sentirmos plenos.
O mundo somos nós, nós somos os outros, somos todos o mesmo. Somos uma cadeia infinitamente interconectada de amor, de relações e aprendizagens, de partilhas e crescimentos. Vivemos para nos abandonarmos a nós e nos entregarmos aos outros, e essa é sem dúvida a maior das lições que a Vida tem para nos oferecer.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Corações de pedra

O que é o amor afinal?
Será que sabemos amar?
Ou será que somos o único grão de areia na duna da vida que vive desprovido de amor?
Usamos e abusamos da palavra amor
Vulgarizamos o amor, quando é algo que não pode ser transmitido por palavras
algo que não pode ser compreendido pela linguagem
Chamamos de amorosas relações que transbordam conflito e ciume
Temos uma visão distorcida do amor, ou da possessão a que chamamos amor
No dicionário da vida, o sinónimo de amor é liberdade
e amar é brindar com liberdade o objecto do nosso amor
O amor é uma luz que é emitida sem espectativa de retorno
é um brilho de admiração e cumplicidade que é tudo menos uma prisão
Amar alguem é como contemplar uma flor que dança ao sabor do vento
é observar e sentir uma comunhão, sem destruir a beleza do que amamos
é uma partilha de existência num momento intensamente presente
O calor do amor emana sem direcção definida,
contagiando tudo o que nos rodeia com esse desabrochar do nosso ser
O amor surge quando silenciamos o pensamento
e abrimos o coração, transbordando uma energia
que nos une silenciosamente ao próximo
É o estado de espírito supremo, a realização máxima de um ser
É o regresso à paz connosco próprios e com os outros

Não me parece que saibamos realmente o que é amar...

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Icosaedros humanos

O que é ser verdadeiro? O que é ser genuíno, autêntico?
Se obervarmos o nosso comportamento e o dos outros, reparamos que todos adquirimos diferentes padrões de comportamento, dependendo do contexto em que nos inserimos. Perante pessoas de níveis sociais diferentes, de níveis hierárquicos ou grupos sociais diferentes, de sexos diferentes, etc...
Qual será a origem de tal postura? Será uma necessidade de aceitação e integração? Serão diferentes níveis de interesse nos diferentes ganhos que as pessoas têm para nos oferecer?
Todos nós temos diferentes faces, todos nós temos diferentes posturas perante o que nos rodeia ao longo dos nossos dias. Hoje sou rebelde, amanhã sou melancólico, ontem fui apaixonado... Diferentes estados de humor nos assolam constantemente, diferentes facetas do nosso ser. Isso não me parece de todo errado, temos de aceitar e exprimir todos os sentimentos que vêm do âmago do nosso ser.
A questão coloca-se quando mudamos de atitude com base em factores externos. Quando mudamos a nossa postura, não com base em nós próprios, mas tal qual camaleão que tenta passar despercebido no meio em que se insere. Sim, porque a maioria de nós não passa de camaleões que tentam camuflar-se, sendo iguais aos outros, sendo 'normais' e passando despercebidos. Assim como o camaleão teme ser encontrado pelo predador, nós tememos destacar-nos... por medo de rejeição? Por interesse?
Com tantas pessoas e situações diferentes, não me parece que ser um camaleão seja uma boa opção. O camaleão fá-lo automaticamente e inconscientemente, está na natureza dele. Fá-lo de forma harmoniosa, sem ter de reprimir nada do seu ser. No nosso caso o que se passa é mais um caso de esquizofrenia crónica, de múltipla personalidade com base no medo. Esse medo afasta-nos da integridade, da capacidade de sermos unos, de nos centrarmos em nós próprios e sermos autênticos a cada momento.
Não somos camaleões, somos humanos... ou pelo menos teoricamente. Somos todos absoluta e maravilhosamente diferentes, e cometemos o profundo suicídio de aniquilarmos o nosso ser na pretensão de sermos algo diferente. Mas enquanto não nos conhecermos e aceitarmos... enquanto não nos amarmos... não conseguiremos exprimir com liberdade o nosso ser.
Um arbusto não tenta ser uma árvore, e por isso é feliz. Um mar não tenta ser um oceano, e aí reside a sua felicidade. A lagarta não se transforma em borboleta pelo querer, o rio não chega ao mar por vontade. Tudo existe por uma razão, a razão de ser, com naturalidade. Tudo tem um caminho traçado: o encontro com essa sua razão de ser. Todo o universo se encontra alinhado consigo próprio, excepto o ser humano, que busca algo mais que si próprio, e se afasta dessa razão de ser.
Enquanto não nos encaixarmos no puzzle, enquanto não procurarmos o nosso oceano, não seremos felizes, e só será possível esse regresso a nós próprios quando conhecermos a nossa face original, deixando cair todas as máscaras.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Sleeping Buddha...

A palavra Buda representa mais do que uma pessoa, representa um estado. Um estado mental, de consciência, espiritual, isso agora cabe a cada um interpretar, dependendo das suas crenças. Siddartha Gautama é o nome do príncipe que abandonou tudo o que possuia por uma busca espiritual, pela busca de si mesmo. Após 6 anos de busca, ao início através da prática de ioga e do ascetismo extremo (prática da renúncia ao prazer, muitas vezes às necessidades mais básicas), e mais tarde através da meditação e do auto-conhecimento, compreendeu a essência das coisas, a origem da infelicidade humana, e ficou iluminado, enquando se encontrava sentado debaixo de uma árvore Bodhi. Após ter atingido este estado superior de consciência, este Buda começou a propagar a meditação, o auto-conhecimento, a compaixão, como forma de escape dos males do mundo, e foi assim que surgiu a 'religião' budista. O budismo expandiu gradualmente, dentro da própria Índia, onde surgiu, e para inúmeros países da Ásia, entre os quais a China, o Tibete, o Japão (onde deu origem à conhecida escola Zen), e a cultura da busca de si próprio, do conhecimento interior, expandiu no Oriente, ao contrário do Ocidente, este sempre vocacionado para a cultura do exterior.
Mas este fenómeno de busca de si próprio não é um fenómeno budista, é um fenómeno potencialmente humano. O estado de nirvana é apenas uma palavra atribuída ao fenómeno que potencialmente está ao alcance de qualquer ser humano. A palavra Buda é apenas a palavra atribuída pelo budistas a alguem que atingiu iluminação, ou o estado de nirvana.
A palavra Buddha vem do sanscrito (língua clássica da Índia antiga, que pode ser equiparada ao Latim) e significa desperto. E desperto porque? Porque digamos que nós, apesar de não estarmos a dormir mais do que as necessárias horas de sono, passamos as restantes horas da nossa vida num estado semi-acordado. Esse estado é caracterizado pelo pensamento compulsivo, pelo condicionamento social, pela automatização das nossas acções, pela distorção da nossa percepção pelo passado, e pela constante busca de algo no futuro.

Pensamento compulsivo porque nunca aprendemos a parar de pensar, e o fio de pensamento prolonga-se desde que acordamos até que nos voltamos a deitar, para então continuar nos sonhos. Não será necessário dizer que esse tipo de pensamento nos distrai do que se passa à nossa volta, e é o grande criador dos nossos pseudo-problemas.

O condicionamento social consiste na formatação por parte da sociedade, que faz com que pensemos e ajamos de forma padronizada e estipulada pelo meio onde nos inserimos. Não pensamos e agimos de acordo connosco, mas de acordo com a sociedade, e portanto não somos livres nos nossos pensamentos e acções.

A automatização das nossas acções é um fenómeno que acontece quando já dominamos satisfatoriamente uma acção, passamos a fazê-la automáticamente, e ao mesmo tempo que a executamos dedicamos uma parte da nossa atenção ao pensamento compulsivo. Isto impede-nos de apreciar a tarefa pela tarefa, e torna difícil a melhoria da execução da tarefa.

A distorção da nossa percepção pelo passado baseia-se no facto de aquilo que vemos, e a forma como compreendemos a realidade, que irá determinar as nossas acções, é extremamente condicionada pelo nosso conhecimento e pelas nossas experiências do passado. O nirvana representa um estado em que a mente está calma, e morre para o passado, concentrando-se totalmente e apenas no presente. Daí dizer-se que o nirvana é um regresso à inocência, em que o nosso olhar se torna puro e inocente como o de uma criança, pois não está condicionado pela memória. Isto possibilita uma verdadeira comunicação e um verdadeiro relacionamento com tudo o que nos rodeia, pois deixamos de olhar através de uma lente distorcida pelo passado, e vemos de uma forma límpida o que nos rodeia.

A busca de algo no futuro consiste no constante pensamento em algo no futuro, algo que receamos ou algo que pretendemos alcançar. O receio de possíveis acontecimentos futuros representa grande parte das nossas preocupações e pseudo-problemas, e se nos focarmos totalmente no presente será concerteza a melhor forma de cultivar um futuro pleno. O anseio por algo no futuro é o maior factor gerador de stress e ansiedade, e coloca-nos numa roda viva de busca de algo exterior para satisfazer o nosso ser. Um dos pontos fundamentais da demanda espiritual é o abandono da busca compulsiva, quando se atinge uma verdadeira compreensão da futilidade da mesma.

E quando, através da meditação e do auto-conhecimento profundo, nos conseguimos focar totalmente no momento presente, sem pensamentos sobre o passado ou o futuro, isso é o nirvana. Quando ultrapassamos todo o tipo de sentimentos que causam divisão entre o presente e o passado ou futuro, isso é o nirvana. Quando conseguimos manter uma mente silenciosa, e sensível a tudo à sua volta, e conseguimos dedicar todo o nosso ser a cada tarefa que nos propomos executar, isso é o nirvana. Quando cada momento é novo para nós, e o abordamos de forma incondicionada... isso é o estado de Buda. E a isso chama-se estar desperto.
O estado de Buda não é nada de sobrenatural, é apenas um estado de atenção total, em que somos nós próprios e totalmente verdadeiros. Esse é um estado que está mais perto de nós do que pensamos. No fundo somos todos Budas... mas o reflexo do nosso espelho parece estar coberto pelo pó do pensamento compulsivo e do condicionamento social, abafando a pureza do nosso ser.
Todos nós somos Budas adormecidos, aprisionados... mas mais grave que tudo, inconscientes, pois não nos apercebemos de que estamos a dormir, e não nos consciencializamos das nossas prisões. No fundo, é tudo uma questão de consciência... quando nos tornamos verdadeiramente conscientes de nós e do que nos limita, a armadura cai e o Buda acorda de um sono que durou anos... e sente pela primeira vez o sabor da vida, o aroma da liberdade.

sábado, 22 de dezembro de 2007

Observar: a cura para a infelicidade

Quanto mais conscientes de nós próprios nos tornamos, mais autónomos nos tornamos. Quanto mais nos apercebemos das prisões e da falsidade em que vivemos, mais livres e genuínos nos tornamos. Um louco que de repente se apercebe da sua insanidade fica são, e da mesma forma quando nos apercebemos da insanidade em que vivemos as nossas vidas, elas transformam-se para nunca mais voltarem a ser as mesmas. E quando nos afastamos dessa insanidade, desse aprisionamento, mais clara é a nossa visão dela. Quanto menos nos identificamos com a falsidade em que vivíamos, melhor a reconhecemos nos outros.
Quando nos tornamos mais conscientes, tornamo-nos menos condicionados, e o condicionamento nos outros torna-se transparente aos nossos olhos. No entanto, esse condicionamento fica muitas vezes além dos horizontes daqueles que não se conhecem, que não são conscientes acerca de si próprios. Expor alguem ao seu próprio condicionamento é uma tarefa infrutífera, pois a consciência só advém da nossa compreensão dos fenómenos.
Quanto mais observamos e compreendemos profundamente a falsidade e o medo em que está imerso o mundo, mais se torna impensável para nós participar nessa tragédia. Temos medo do passado, medo do futuro, medo de nós próprios, medo dos outros, mas estes medos não são claros para quem permanece ignorante acerca de si próprio. Vivemos sobre o manto do olhar dos outros, usando máscaras e armaduras, mais uma vez devido ao medo que nos habita. Quando isto se torna claro para nós, torna-se também inaceitável, e partimos em busca da liberdade e da autenticidade.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Closer to reality

Quando duas chamas de consciência se tocam, gera-se uma chama tão intensamente brilhante, maior que a soma das duas... e a chama não volta a ser a mesma... possui em si um toque da outra, possui uma nova qualidade... uma qualidade partilhada de compreensão da vida.
Consciência atrai consciência e contagia com consciência... e o mundo não volta a ser o mesmo.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Quem sou eu?

Em que consiste a felicidade? A felicidade é o derradeiro estado de espírito, em que todas as nuvens se afastam, e o brilho dos raios solares invade o nosso céu interior. E essas nuvens nada mais são que pensamentos e interpretações. Apenas o que possamos pensar acerca da vida ou a forma como interpretamos o que nos rodeia determina a infelicidade. Em última instância, a felicidade é sempre uma decisão nossa. Isso não invalida, no entanto, que os factores externos possam influenciar essa busca da felicidade, tornando-a mais fácil ou mais difícil. Se a nossa envolvente é um turbilhão de energias negativas, ou se consiste em acontecimentos que se opõem àqueles que fomos formatados para acreditar que são os nossos ideais, é necessária uma maior força interior para atingirmos a felicidade. Se tivermos uma envolvente propícia ao bem estar, será mais fácil atingirmos esse estado de equilíbrio interior. Mas volto a repetir: em última instância, a felicidade depende sempre da nossa forma de abordar ou interpretar o que nos rodeia, é uma harmonia e uma paz interior de uma fragilidade sólida, de uma delicadeza robusta, de uma sensibilidade impenetrável.
Disto conclui-se o óbvio: uma pessoa que consiga criar um contexto externo adequado ao seu ser, conseguirá mais facilmente atingir a felicidade. MAS nunca atingirá a felicidade total se descurar o seu mundo interior. Por mais fértil que seja o terreno, e por mais que se regue, e por mais que o sol brilhe, a flor nunca vai florescer se não plantarmos a semente. E a semente, no nosso caso, é o auto-conhecimento. Mas não um auto-conhecimento crítico/opressivo. Se ao ganharmos maior conhecimento de nós próprios formos julgando e reprimindo aquilo que julgamos errado... Se formos recalcando aquilo que, segundo as ideias da sociedade, está incorrecto, estaremos não só a negar uma parte de nós, mas pior, estaremos a varrer o pó para debaixo do tapete. O chão nunca ficará limpo desta forma. A sujidade continua lá, mas escondida. A repressão é uma barragem que cede mais cedo ou mais tarde, e que nos priva da nossa felicidade a um nível mais imediato e mais profundo do que pensamos. Esconder partes de nós debaixo do tapete do inconsciente apenas fará com que essas mesmas partes venham à superfície sob outra forma.
Portanto, o verdadeiro auto-conhecimento é livre de julgamento, e assim livre de repressão. O verdadeiro auto-conhecimento tem como outra face uma profunda aceitação. Mas não uma aceitação passiva, e sim uma aceitação construtiva. Construírmos os alicerces da nossa força sob um pântano, fará com que esta não seja estável, e não seja verdadeiramente forte. Se reprimirmos as nossas falhas e fraquezas, se as negarmos, nunca poderemos melhorar. Temos de olhar de frente os nossos defeitos, aceitá-los, e então nessa base de aceitação poderemos construir algo de belo, algo com raizes profundas.
Quando deixamos de reprimir facetas do nosso ser, sentimo-nos flutuar. Quando começamos a deixar transparecer quem realmente somos, começamos a sentir os primeiros aromas de liberdade.
E mais importante que tudo: se acreditarmos que já sabemos tudo, pararemos de aprender. Temos de nos limitar a uma sábia ignorância, e nos manter permanentemente abertos ao crescimento, e o mesmo se aplica ao conhecimento de nós próprios. Por isso, se à partida julgarmos saber muito sobre nós próprios, especiamente sobre os nossos defeitos, estaremos a fechar as portas de um auto-conhecimento mais profundo, porque o poço da melhoria é muito, muito fundo. Se acharmos que nos conhecemos bem, provavelmente sabemos muito menos do que pensamos. Quando deixamos de ser presunçosos e nos abrimos a mais descoberta, começa a jorrar a fonte do auto-conhecimento duma forma surpreendente. E essa será a semente que germinará em felicidade, pois como poderemos ser nós próprios e genuínos se não nos conhecermos? E como poderemos ser felizes se nos traírmos a nós próprios, abandonando o prazer de ser para usar uma máscara?
A vida é um rio de auto-descoberta. Aqueles que se perderem na margem morrerão sem avistar o mar.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Dia internacional da utopia

Hoje comemoro o dia em que um grupo de pessoas decidiu, em homenagem à dignidade e aos direitos inerentes a todos os seres humanos, e com vista a promover a paz e a justiça no mundo, criaram a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948). Deixo à reflexão de quem decidir dar uma vista de olhos neste tratado humano.
E agora um minuto de silêncio por todos aqueles que, sendo seres humanos como qualquer um de nós, com direito à sua dignidade e à sua busca de felicidade, tal como nós, sofrem todos os dias, por opressões e censuras, quer sejam a nível político, religioso, ou individual, dentro de diversas sociedades, quer seja entre povos diferentes, a um nível mais profundo de falta de solidariedade e fraternidade, e de imensa desigualdade.
A vós, irmãos...

domingo, 9 de dezembro de 2007

A lâmpada fundida

A solução para a transformação interior, que nos torna independentes do exterior está na consciência. Esta consciência é a qualidade que nos permite estabilizar o nosso interior, através de um contacto profundo, e isso reflectir-se-á no nosso exterior, na nossa vida. Um interior puro e sereno aborda a vida de forma pura e totalmente serena.
E o que é essa consciência? Mais um conceito abstracto e, como tal, de definição controversa. Para alguns o estado de consciência é um estado de atenção, de observação do momento presente, sem nos deixarmos alienar por perturbações mentais muitas vezes originadas em imaginações passadas ou futuras. Esta atenção totalmente consciente não se foca apenas no que nos rodeia, mas também a nós próprios.
Na consciência de nós próprios e na nossa aceitação total de tudo em nós, sem repressão dos aspectos negativos, encontra-se a base da criação de um bem estar na nossa relação connosco próprios. E isso não é possível enquanto não temos a capacidade de estarmos a sós connosco, quando o nosso estado é um constante aborrecimento e dependência permanente do exterior.

Tive o prazer de ler um excerto de um livro do Arno Gruen, que se chama "A traição do Eu", onde é referido exactamente isso: que somos demasiado dependentes de estímulos exteriores, por vivermos numa cultura "fast" e sociedade fast. Que somos bombardeados por estímulos externos de satisfação rápida, o que nos impede de criarmos um mundo interior, onde nos relacionamos connosco, e interagimos constantemente e profundamente com os nossos sentimentos.
Optamos pelo mais rápido e fácil, e é isso que nos destroi. Esse constante bombardeamento de estímulos superficiais que nos fazem sentir vivos, no fundo conscientes, mantém a nossa atenção no exterior, negligenciando o nosso interior, e tornado-nos verdadeiros fast addicts. O fugir de nós, das nossas insatisfações e medos mais profundos, não só não é uma solução, como gradualmente destabiliza a nossa harmonia. Temos de olhar para dentro, olhar com olhos de ver, ver e aceitar tudo em nós, mesmo os medos e "fraquezas", e só aí se poderá começar a construir um templo interior de culto da paz.
No estado em que nos encontramos actualmente acabamos por ser computadores, e o teclado e o rato estão nas mãos de um conceito abstracto chamado de sociedade. Mas no fundo, a sociedade é formada por nós, e apenas nos dá aquilo que queremos. O mesmo se passa com a religião e a política. Apenas nos fornecem a segurança ou pseudo-segurança que procuramos. Só vendem o produto que o consumidor procura, é uma questão de puro marketing. Antes de criticarmos padres e políticos por nos manipularem, devemos criticar as pessoas que inconscientemente pedem para serem manipuladas. Mas além de qualquer crítica, devemos a um nível mais fundamental olhar para nós e tranformarmo-nos, de forma a deixarmos de contribuir para essa inconsciência colectiva.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Beco sem saída

Problemas...
Temos tantos problemas, tantas preocupações e tanto sofrimento. A vida é difícil, apresenta-nos tantas dificuldades e contratempos. Vivemos num estado constante de sacrifício do presente, partilhando esperanças de encontrar a felicidade no futuro. Mas quando o futuro se torna presente, vemos que a felicidade se voltou a distanciar para um futuro distante. Conformo-me com a minha infelicidade agora, sofro, para que no futuro consiga ter tudo o que me vai trazer felicidade. O futuro chega e transforma-se em presente... e atingimos a felicidade? Ou continuamos infelizes, com problemas e preocupações, e adiamos a felicidade para outro momento futuro? Parece-me que seja mais a segunda hipótese.
Quando tiver o meu emprego e um rendimento estável... aí sim vou ser feliz e os meus problemas e preocupações vão desaparecer. Ou será quando atingir um patamar elevado de poder, prestígio? Ou quando tiver todo o dinheiro e bens materiais que julgo serem suficientes?
Julgamos que as pessoas são infelizes devido à sua situação de vida, julgamos que os nossos problemas são o resultado das nossas circunstâncias de vida. Vamos analisar isto: uma pessoa pobre tem problemas... uma pessoa rica também... uma pessoa que faça aquilo que gosta profissionalmente também... pelos vistos TODA a gente tem problemas! Ou não? O mais provável é que qualquer um de nós, mesmo que visse todos os seus desejos realizarem-se, continuasse a ter problemas, e a sentir que faltava algo para a sua realização.
Então sendo assim, não será lógico que a origem dos nossos problemas não se deve às circunstâncias da nossa vida? Se todas as circunstâncias diferentes têm problemas associados, o mais provável é que assim seja. Então qual será a raiz dos nossos problemas? Não é muito difícil encontrar uma pessoa cuja situação de vida seja mais pobre exteriormente, e que seja mais feliz que outras com uma vida exterior rica. O que me parece, após estas considerações, é que a felicidade é algo interior.
Segundo vejo, o verdadeiro problema somos nós. O verdadeiro problema é o nosso desiquilíbrio interior, turbulência e desarmonia interior, que originam a infelicidade que tanto abunda no nosso mundo. E obviamente que essa infelicidade interior se reflecte no exterior. Ou seja, os nossos "problemas" são apenas consequências da nossa desarmonia interior!
Então não será lógico e racional deixar de procurar remediar a nossa vida através de mudanças no exterior? Se a causa dos problemas é interior, porque tentar resolvê-la através de constantes "melhorias" do nosso mundo exterior? Talvez o ganho de poder, prestígio, dinheiro, e todo o tipo de bens materiais faça parte de uma busca sem fim e infrutífera. Se assim é, porque não orientarmo-nos para resolver os problemas na sua origem, transformando o nosso interior, de forma a que, independentemente da nossa situação de vida, sejamos felizes.
O epicentro deste terramoto somos nós. Os nossos chamados problemas são o hipocentro, ou seja, um simples reflexo superficial do que se passa a níveis mais profundos, dentro de nós. Se o alicerce de um edifício está mal construído, por melhor que seja a sua estrutura superior, nunca será verdadeiramente estável. A mudança eficaz deve ser profunda, deve ser na origem.
Então, se a origem dos nossos problemas somos nós, até que ponto podemos considerar reais esses mesmos problemas?

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Jingle Bells

Vou permitir a mim próprio, apesar de não ser católico, nem religioso... intrometer-me numa das tradições cristãs, e enviar uma carta ao barbudo que se vendeu à coca-cola.
Caro traidor, este ano gostaria de encontrar algumas coisas na minha meia pendurada na lareira. Não tenho lareira, e se tivesse nunca seria um local onde penduraria meias... mas continuando:
Há coisas que gostaria que mudassem.
Sou uma pessoa que não se chateia por ter como valor máximo a tolerância. Tolero o que vai contra a minha perspectiva pessoal do mundo que me rodeia. Tolero mesmo tudo aquilo que não compreendo, pois quem sou eu para sobrevalorizar o meu insignificante mundinho psíquico pessoal, em detrimento dos mundinhos dos outros. Devo aceitar e respeitar tudo o que faz sentido para quem quer que seja. Da mesma forma que tento aceitar todas as circunstâncias com que me deparo, sem criar resistência à realidade, e consequentemente sem criar nenhum tipo de conflito ou desarmonia interior.
No entanto, e apesar do que muitos pensam, aceitação não é letargia, não é cegueira, não é passividade extrema. Uma coisa é respeitar as coisas pelo que são, e outra coisa é ser acrítico. Tenho uma opinião pessoal que exprimo e espero que seja respeitada assim como valorizo as dos outros. Sou feliz, vivo satisfeito de forma quase permanente, no entanto, e obviamente, há coisas que poderiam mudar para melhor, na minha opinião.
Portanto vê lá se desencantas o seguinte, e não te esqueces de trazer da próxima vez que passares na minha chaminé. E mais uma vez, não tenho chaminé.

Quero um mundo em que as pessoas deixem de viver centradas no seu ego. Copérnico já há muito tempo que desenvolveu a sua teoria heliocêntrica, por isso desejo um mundo em que as pessoas abram os olhos. Um mundo em que consigam enxergar o horizonte para além da ponta do seu nariz. Somos 6 biliões, num minúsculo planeta comparado com a imensidão do universo... e quase todos desses 6 biliões se consideram o centro do universo.

Quero um mundo em que as pessoas consigam sair da sua esfera pessoal de percepção do que as rodeia, e consigam olhar o mundo de forma mais objectiva, clara, contextualizada, mais complexa e também mais simples. Que consigam sair de si, colocar-se no lugar dos outros e compreender verdadeiramente o outro ser. Mas não na teoria, e sim na prática. Na prática, quando temos tendência para nos chatearmos com alguem por algo que fez, por exemplo. De dentro da nossa casa no vale não sabemos o que é o vale, por isso mais vale estarmos calados... quando escalamos cada uma das montanhas que circundam o vale, e obtemos diversas perspectivas, diferentes da nossa original, sobre o vale, aí sim subimos na escala da razão e crescemos como seres Humanos com H maiúsculo.

Quero um mundo onde as pessoas se ouçam umas às outras. E na base desta necessidade está mais uma vez o egocentrismo. Como diria Martin Luther King "I have a dream"... eu sonhei com um mundo onde as pessoas deixam de pensar só em si, e de falar só de si, e de avaliar tudo em função de si. Sonhei com um mundo onde as pessoas se importam realmente com o que os outros pensam e sentem. Será pedir demais? Provavelmente... mas até que morra a última sogra, continuarei a ter esperança!

Contribuam para a abolição de todas as fronteiras, em especial as fronteiras que separam o indivíduo dos seres com quem se pseudo-relaciona. Deixem de viver fechados em vós, amem-se verdadeiramente! Não falo de um amor de palavras vazias, de um amor racional, de interesse, de prazer ou de conformismo... falo de um amor verdadeiro, fluído e infinito, sem causa ou origem, e de destino indeterminado. Emana em todas as direcções, sem escolher o que atingir, nem esperar algo em retorno.

Irmão Natal... sim, irmão... porque num mundo onde somos todos iguais e todos irmãos, és mais meu irmão que meu pai. Até ver o teu cariótipo e ter provas do contrário, pelo menos. Caro irmão... não serão precisas mais palavras concerteza. Fico à espera... esperarei até que a minha "lareira" se apague...

sábado, 1 de dezembro de 2007

Transformação de consciência

Para verdadeiramente nascer para a vida, é necessária uma grande viagem interior.
É necessária uma viagem de compreensão de nós próprios. Esta viagem tem por base uma observação profunda do que se passa dentro e fora de nós: dos nossos pensamentos e emoções, dos nossos comportamentos e motivações, e de todas as barreiras que ofuscam a nossa luz inata. Esse exercício de observação, quando aprofundado, permite identificar processos imperceptíveis ao observador comum.
A observação continuada de nós próprios permite compreender o carácter mental, nas suas vertentes compulsivas, que nos impedem de gozar o momento presente, e viver profundamente. A vertente compulsiva da mente reside na falta de silêncio interior, e logo de serenidade e paz. A mente compulsiva é aquela que não cessa nem por um segundo, seguindo uma cadeia infindável de pensamentos quase sempre perfeitamente desnecessários. E só observando e compreendendo isto é possível acalmar os pensamentos, e tornar a mente um lago calmo e silencioso.
Esta compulsividade de pensar, está intimamente relacionada com a necessidade de auto-fortalecimento constante por parte do ego. Compulsividade de criar uma identidade e uma imagem social, de forma a sentir segurança e sentir-se inserido no meio social, ser aceite. Compulsividade de buscar ou ansiar por algo mais que o presente, projectando-se constantemente no futuro, fomentando uma esperança que nos desvia da única realidade: o presente. O ego precisa de uma auto-imagem, e de uma auto-imagem forte. E a mente precisa de algo que lhe dê esperança e razão para viver. Mas essa auto-ilusão distorce o nosso comportamento natural, condicionando-o, e retira-nos a capacidade de viver o presente.
Mas todos estes processos são, na maior parte das vezes, inconscientes e automáticos. E, quando através da observação, nos consciencializamos do que se passa dentro de nós, a luz da nossa consciência expulsa essa escuridão mental, e dissolve gradualmente todas essas barreiras à liberdade de ser e viver.
E essa observação faz-nos compreender que todas as barreiras à nossa liberdade são mentais, que somos condicionados e na maior parte das vezes inconscientes, que somos sonâmbulos e autómatos devido à existência de uma identidade falsa que condiciona o nosso comportamento. O ego vive do conhecimento e da experiência, ou seja do passado. Todas as suas acções são condicionados por esse passado, e tornam-se gradualmente autómaticas, o que estimula o pensamento compulsivo, e nos impede de sentir o prazer de estar vivo.
A verdadeira identidade não tem barreiras. A verdadeira identidade está centrada no presente, de forma incondicionada. Ama o presente como se não houvesse amanhã, e morre para o passado a cada momento que passa. A sua luz brilha sem nenhum tipo de amarras.