segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Zambujeira do Mar

Ao longo da recortada costa Vicentina encontra-se uma mística e mítica terra, algures entre Vila Nova de Mil Fontes e Odeceixe, terra esta que alia o seu carácter paradisíaco a um espírito itinerante que a inunda alguns dias por ano, por alturas da primeira metade do mês de Agosto. Junto a uma lindíssima costa escarpada, banhada pelas agitadas ondas duma água gélida (na humilde opinião de um madeirense, oriundo duma terra onde as águas do mar são ternas), jazem casas alentejanas, brancas como a cal, moradias de pessoas amigáveis, e cujo calor humano se alia a uma abertura de espírito que se deve em parte ao fluir das pessoas que se deslocam a este mundo por alturas do festival Sudoeste.

O dia na Zambujeira nasce tarde, devido às andanças tardias do dia anterior. Mas quando nasce, os exércitos enchem as ruas e as lindas praias, rodeadas por rochas laminadas. O sol quente e o calor humano aquecem este mundo até o astro-rei pousar a meio da tarde, altura em que todos migram de volta para o festival. Nas praias ficam as pranchas de surf, e nas ruas ficam espíritos livres com seu negócios de roupa, bijuterias e todo o tipo de acessórios, com música e sorrisos. A música e alegria estendem-se no tempo e no espaço, até que a magia adormece sob o brilho da lua, para renascer feita fénix com os raios de sol do final da manhã seguinte.

Uma semana por ano a magia nasce numa terra já por si mágica. A vida liberta-se nas ruas deste labirinto com mil e uma estradas e um milhão de sorrisos, para mais tarde deitar-se nos lençóis da paz e do sossego, caindo num sono de muitos dias e muitas noites.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Uma arte humanista

Cantores, pintores, poetas, escultores, músicos... estes e outros tipos de artistas já contribuem pela sua natureza para o enriquecer da cultura e da vivência humana. Só a sua existência é suficiente para dar côr aos nossos dias. Sinto gratidão para com estas pessoas por algo que lhes é natural, que é a expressão da sua alma. Mas apesar dessa expressão ter um impacto positivo na vida das pessoas que as rodeiam, não deixa de ser uma expressão com origem num comportamento egoísta. Não digo egoísta num sentido negativo, pois nem sempre é negativo ser egoísta. Não somos todos um pouco? É egoísta na medida em que é uma acção que visa dar-lhes prazer, mesmo tendo em conta que dá côr à vida dos que os rodeiam.

É tendo isto em conta que subo a parada no que toca à avaliação dos artistas: (quase) todos o fazem porque o sentem, porque faz parte deles, sendo que a consequência é um enriquecimento do mundo em que vivemos. Quando digo que subo a parada na avaliação dos artistas, digo isto porque há alguns artistas que não se limitam a exprimir o que lhes vai na alma, sendo que também tentam ir além disso contribuíndo de outras formas para esse enriquecimento do nosso mundo.

Um desse grupo de artistas é um grupo composto pelo Chris Martin, pelo Jonny Buckland, Guy Berryman e Will Champion, também conhecidos como Coldplay. Enquanto que muitas outros artistas, e sem de alguma forma os menosprezar, se limitam a expressar o que lhes vai na alma (o que é algo que já considero monumental), os Coldplay tentam usar a sua fama e sucesso como ferramenta para ir além disso e tornar melhor o mundo onde vivemos.
Esta banda é sem dúvida uma banda de grande sucesso a nível mundial. No entanto, não deixou o dinheiro e a fama subirem ao topo da cadeia alimentar do sucesso, relegando para lugares mais baixos os seus princípios. Os coldplay mostraram-se comedidos, por exemplo, no que toca à utilização comercial dos seus produtos: recusaram contratos publicitários de milhões de euros com marcas de nível mundial para a utilização de algumas das suas músicas, por considerarem que estariam a vender o verdadeiro significado das músicas. Os Coldplay doam também 10% de todos os seus lucros para a caridade, o que é um valor extremamente significativo, tendo em conta o grande sucesso da banda. Finalmente, a banda, e especialmente o seu líder Chris Martin, estão intimamente associados à campanha de Comércio Justo, ou Make Trade Fair. Esta campanha, apoiada pelos activistas ingleses, é uma campanha que pretende contrariar a tendência centralista e capitalista que movimenta o comércio mundial nos dias de hoje. Pretende defender os direitos dos comerciantes mais pequenos e locais face às grandes multinacionais. É uma iniciativa que o vocalista da banda faz questão de tornar pública nos seus concertos, e evidenciar, recorrendo a uma decoração no seu punho, ou uma pulseira, chegando mesmo a expor explicitamente a filosofia no início dos seus concertos.
Venho por este meio tornar pública uma ovação de pé, uma vénia, e uma grande salva de palmas, a estes embaixadores do humanismo, e a todos aqueles que tentam através das suas acções tornar este mundo um local mais justo.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Zeitgeist

O que é o Zeitgeist? Este é um termo alemão que pode ser definido como "espírito da época", dizendo respeito a uma determinado clima intelectual e/ou cultural de uma determinada época. É a estrutura de pensamento em vigor em determinado tempo histórico. Esta abordagem da psicologia de uma era assenta em parte na lei da parcimónia de Ockham, abordagem simplista segundo a qual um fenómeno pode ser descrito de uma forma simples e assente apenas nas ideias estritamente necessárias. Assim como a "navalha de Ockham" defende uma visão geral da realidade, assente nas premissas mais básicas, o Zeitgeist reduz a forma de pensar de uma determinada época a princípios em vigor que são predominantes. Nem a lâmina de Ockham nem o Zeitgeist negam a existência de outras premissas, afirmando apenas que existem algumas predominantes. Suponhamos que falávamos do mundo em que vivemos na actualidade: poder-se-ia dizer que vivemos num mundo assente no dinheiro. Claro que o mundo não assenta apenas no dinheiro, pois há muito mais coisas que motivam as pessoas, mas é inegável que o dinheiro assume uma influência muito grande na forma das pessoas pensarem, pois todas as escolhas que fazem tem no fundo a ideia de que precisam de gerar dinheiro para satisfazer as suas necessidades. Portanto, aplicando o princípio de Ockham e procurando descobrir o nosso Zeitgeist, reduziríamos a nossa forma de pensar a pontos-chave, entre os quais o dinheiro.
Temos como exemplos de Zeitgeists em vigor ao longo da história da humanidade o Iluminismo, corrente cultural/intelectual com origem no século XVII. De acordo com o espírito iluminista, o ser humano possui em si as capacidades - racionais e de introspecção - necessárias para tornar este mundo um mundo melhor. Este movimento foi marcado, entre outros, pelo grande pensador alemão Immanuel Kant. Podemos também tomar por exemplo o surgimento do período do renascimento, por volta do final do século XIII, onde se substituíu uma estrutura mais feudalista por outra mais capitalista, e onde floresceram ideiais humanistas e naturalistas.
Mas então e qual é o nosso Zeitgeist? Se repararmos, tanto os períodos referidos como outros períodos históricos, são geralmente tornados conscientes e analisados após o seu final. Assim como um peixe não tem (metafóricamente falando) consciência do que é o mar, pois não se consegue colocar fora dele para o presenciar, é-nos extremamente difícil sair da nossa estrutura de pensamento vigente e analisá-la duma forma global. Apenas um ser extra-terrestre que não pensasse como nós poderia chegar ao nosso planeta e traçar um plano geral da nossa forma de pensar e da nossa estrutura social. Será mesmo assim?
Não nos será possível usar a lâmina de Ockham e simplificar a realidade observada de forma a traçar um panorama do que se passa no nosso mundo? Qual é o nosso Zeitgeist? Será que teremos de esperar décadas ou mesmo séculos para conseguir resumir a nossa forma de pensar? Como será que, daqui a vários séculos, os estudiosos irão encarar a época que vivemos agora? Como a irão analisar e resumir?

segunda-feira, 27 de julho de 2009

A dança xamânica ao deus do petróleo

É reconhecido, apesar de muita gente se manter alheia a estes factos, que o império das empresas multinacionais, que se expande cada vez mais rapidamente, joga numa liga completamente superior das empresas nacionais de muitos países. Economias como a americana demolem por completo agricultores e produtores locais, exercendo uma grande influência sobre economias mais fracas. Isto deve-se ao grande capital que possuem, que permite uma massificação das produções, que leva a um aumento do capital, continuando de uma forma cíclica.

Algumas dessas economias que vão sendo absorvidas pelas multinacionais possuem recursos valiosíssimos aos olhos daqueles cuja ocupação é a produção de capital, como o petróleo. Isto leva a que muitas dessas empresas se tentem instalar nesses países, para conseguirem extrair o máximo de riqueza. Só que o equilíbrio entre riqueza e ambientalismo é muito difícil de manter, e um exemplo disso é o caso de "crime contra a humanidade" (de acordo com as palavras de Rafael Correa, chefe de estado do Equador) que está a ser cometido pela empresa Texaco, que se fundiu há alguns anos com a outra gigante Chevron. O que se passa é que os monstros do petróleo têm gerado grandes quantidade de resíduos derivados da refinação do petróleo na floresta amazônica, poluindo água, solo e ar. A quantidade de poluição já ultrapassou a libertada no famoso desastre do petroleiro Exxon-Valdez em 1989, sendo que o impacto se verifica também a nível social, com um grande decréscimo da qualidade de vida dos locais.

Já existe uma acção judicial em curso contra a multinacional, posta em prática por 3000 indígenas, e também o presidente equatoriano já se juntou a esta luta pela defesa do ambiente e da qualidade de vida do seu povo (será que se partiria para esta luta se apenas tivesse em causa o impacto ambiental, e não dos locais?). A Texaco negou, no entanto, a responsabilidade deste crime ambiental que é também uma violação dos direitos humanos, remetendo a culpa para a empresa nacional Petroecuador (que herdou a sua tecnologia da Texaco). Mas a empresa equatoriana já se comprometeu a proceder a uma limpeza da poluição recorrendo a biotecnologia (bactérias que degradam a poluição).

A Texaco, por sua vez, nega a responsabilidade, o que faz todo o sentido quando uma perda judicial seria também uma grande perda financeira. E o que são as vidas dos indígenas e a manutenção de um meio ambiente equilibrado face ao lucro? A luta entre o poder económico e o ambiente é uma das grandes lutas do nosso tempo, senão mesmo A luta. Apesar de reconhecer que esse comportamento por parte das multinacionais deriva de tendências intrínsecas do ser humano (como a busca do experienciar do prazer oferecido pela sensação de poder e ganho), não acho a situação aceitável, e algo tem de ser feito. Sim, é provável que muitas outras pessoas no contexto do presidente duma empresa multinacional agissem de forma similar, porque o poder muda as pessoas, mas mesmo assim cabe-nos a nós, como seres sensíveis e conscientes, agir da melhor forma que pudermos. Não temos de pertencer todos a organizações ambientais e ser activistas, basta apenas tentar agir de forma correcta a cada momento, e se possível sensibilizar as outras pessoas para o bem comum, nosso e do ambiente.

Democracia representativa?

A democracia representativa é uma forma de estruturação do governo de um país. Neste sistema o povo vota em actos eleitorais regulares (de anos a anos) e escolhe um grupo de pessoas, grupo este que irá tomar as decisões em nome do povo durante um certo período. Esse grupo poderá seguir determinada orientação política (mais de direita ou esquerda) e terá um plano de acção definido. Este plano é apresentado aos eleitores e pretende atraír o seu voto (claro que há inúmeras mais variáveis em jogo), mas apenas numa versão reduzida. Diga-se de passagem que julgo que seria importante que mais pormenores deste plano fossem transmitidos cá para fora. A partir do momento em que esse grupo de representantes é escolhido, será ele a decidir que passos tomar na direcção dum povo. Há, no entanto, determinadas decisões consideradas de extrema importância (e talvez acerca dos quais o povo seja mais consciente) que são respondidas através de referendos, quando é consultada a opinião do povo. Tomemos por exemplo a execução de referendos, como o referendo do aborto posto em prática em Portugal em 2007.
Mas a maioria das decisões é tomada pelo grupo eleito, que adquire assim grande poder na governação do país. Esta é talvez a maior crítica a esta tipo de sistema governativo: escolhemos um grupo de pessoas que nos irão representar durante um certo período, e que irão tomar imensas decisões por nós, quando têm tanto direito a fazer como qualquer outro cidadão. Outro problema é que este sistema leva também a uma polarização, ou seja o surgimento de diferentes forças opostas (como dois grandes partidos, um a representar a direita e outro a representar a esquerda), e a uma centralização do poder. Isto deve-se em parte a uma tendência para as pessoas tentarem evitar votar nos partidos que julgam que não conseguem ganhar (porque acham que seria um voto "desperdiçado"). Claro que outros factores também afectam a decisão das pessoas, como a identificação com a ideologia do partido e o plano político (que tende para uma homogeneização, pois acabam por não haver assim tantas diferenças entre aqueles que têm mais probabilidades de ganhar). E claro que uma boa campanha de marketing político também pode ter a sua palavra a dizer, quando apela aos sentimentos das pessoas (patriotismo, regionalismo, família, filosofia política), quando há uma maior exposição da imagem dos candidatos (com base no chamado efeito de mera exposição, estudado pela psicologia cognitiva e social), e quando esses candidatos possuem uma imagem atraente (com base em estudos de psicologia social, na área da formação e mudança de atitudes, e tomada de decisões).
Existem também críticas quanto à imparcialidade da escolha dos membros por parte dos partidos, o que poderia levar (e o que se verifica) a uma baixa representatividade, e à existência de um grande número de grupos ou papéis sociais que estão gritantemente fora dessa intervenção directa no governo, levando a uma grande homogeneidade dos papéis sociais dos nossos representantes (economistas, empresários, etc). Se temos representantes que não são "do povo", como podemos esperar que tomem decisões pelo povo? Se não partilham o interesse geral do povo mas sim um interesse específico (o que diga-se de passagem parece envolver um grande interesse monetário), como podem ser eficientes dos ponto de vista do povo? Questiono-me também até que ponto há financiamento de privados nas campanhas dos partidos candidatos, e que peso poderiam ter esse financiamentos nas futuras tomadas de decisões (algo que é também tido em conta no filme Zeitgeist, que recomendo). Questiono-me também acerca do que acontecerá quando algum membro dum grupo candidato muda uma sua atitude acerca do plano, será o plano discutido ou o candidato posto de parte? Se for posto de parte, estará concerteza a contribuir para uma homogeneização de atitude, o que baixa a representatividade e diversidade de opiniões (que na minha opinião são muito importantes num bom governo). Julgo que o mais provável seja que ocorra uma "sobrevivência do bando mais forte", em que o membro é retirado para o bem da coesão de grupo. Então duma forma muito resumida, os grupos de pessoas que fazem partes dos partidos políticos tendem a partilhar uma opinião parecida e a excluir as opiniões diferentes, e acabam por não representar uma grande variedade de opiniões que está presente na população... até que ponto este é um sistema representativo? Mesmo entre os diferentes partidos há uma tendência para essa criação de grandes "bandos", o que parece reduzir ainda mais a variedade de opiniões. E quando essa pouca variedade de ideias que tentam chegar ao poder é ainda influenciada por outros interesses que não os da população comum, não me parece que este sistema represente a opinião do povo.
Após tantas críticas, que dizer? A democracia é na minha opinião o sistema de governo mais justo dos conhecidos pelo povo (não quer dizer que não consigamos idealizar outros), pois assenta
na ideia de que as decisões importantes devem ser tomadas pelo povo. Na prática é difícil dizer se isto acontece, porque aquilo que consideramos importante varia muito de pessoa para pessoa, mas acho que essas decisões tomadas pelo povo deveriam ser em maior quantidade e mais variadas do que são. As pessoas deviam ser questionadas mais vezes e sobre mais assuntos no que diz respeito à governação de um país. Mas também admito que da democracia representativa faz parte a ideia e o compromisso de que após escolhidos, os representantes devem tomar decisões pelo povo. Então onde se encontra o ponto de equilíbrio? Utopicamente falando a perfeição reside na instauração de uma democracia directa (ou pura), onde o povo intervem em cada situação particular, mas claro que na prática isto é praticamente impossível.
Mas se a democracia directa é o melhor que podemos imaginar, talvez possamos pensar um pouco acerca do que pode ser feito para que este sistema que temos no presente se aproxime dessa outra forma de governação que é a democracia pura.
Um dos factores que mais pesam nas falhas deste sistema relativamente ao de democracia directa é sem margem para dúvida a falta de interesse e participação do povo, e sem participação do povo não pode haver tomadas de decisão por parte deste. Mas então e porque existe esta falta de interesse? Os assuntos sobre os quais os representantes tomam decisões são do interesse do povo, não são? Talvez se houvesse uma melhor comunicação entre os dois níveis houvesse mais interesse. Se houvesse uma comunicação mais bidireccional, em que o povo não intervém apenas em eleições esporádicas, se despertasse mais esse interesse. Talvez uma maior exposição das acções políticas (não apenas daquelas com melhores resultados) também ajudasse, assim como uma maior exposição dos processos intrínsecos da governação e de como ela se estrutura. Parece-me haver ainda outro factor importante, que é uma barreira técnica/terminológica, que se verifica em muitas outras áreas sociais específicas, como a economia e as ciência exactas. No entanto, nas ciências exactas essa barreira da terminologia não tem consequências muito graves no bem-estar das pessoas, pois os cientistas apenas procuram um aumento do conhecimento e que esse conhecimento tenha alguma aplicação. Os políticos, por outro lado, tomam decisões muito importantes que definem o rumo das vidas de milhões de pessoas, e os economistas parecem ter alguma influência nessas decisões. As barreiras terminológicas são difíceis de transpôr porque são de certa forma necessárias, pois permitem a grupos específicos de pessoas construírem códigos conceptuais específicos (à medida que conhecemos mais acerca de um tema temos de ir adquirindo mais conceitos e cada vez mais específicos, é normal). Mas neste caso específico julgo que é importante dar o máximo para a transpôr, e se não o podemos eliminar o jargão, porque não ensiná-lo ao máximo de pessoas? Não vejo outra solução mais eficiente que melhorar profundamente e educação das pessoas. E porque é que isto não acontece? Tenho uma ideia de resposta, mas por agora fico no silêncio. De uma forma muito resumida, os que governam devem falar a mesma linguagem que o povo, e devem educar estas pessoas cada vez mais para que estas tenham noção da importância dos assuntos em questão.
Além da educação das pessoas e da transparência (o que promoveria a consciênca e intervenção das pessoas), julgo que os sistemas de voto deviam ser muito mais desenvolvidos (e porque não o são?). Utopicamente falando, o sistema ideal seria um sistema electrónico ligado a todos os lares (ou mesmo a uma rede móvel), que permitisse que todas as pessoas votassem a quase qualquer momento. Isto, aliado à transparência e à consciencialização iria sem dúvida produzir um sistema muito mais próximo da democracia directa.

No entanto, os políticos possuem uma tendência humana, comum a todos nós, de querer o melhor "para nós e para os nossos". Só que numa posição de poder essa tendência tem consequências muito maiores do que no seio de uma família, pois afectam milhões, e no seio da família há maior homogeneidade e menos conflito de interesses. Esse interesse de conseguir o melhor para nós e para os nossos afecta as decisões que tomamos e, como dá para perceber, pode definir o rumo de um país. Acho que aqui entra o grande papel que a psicologia científica (nomeadamente a psicologia cognitiva e a psicologia social) pode ter ao nível da melhoria da experiência de vida das pessoas. Pode aplicar o seu
conhecimento acerca de como as pessoas percepcionam o mundo e sobre ele agem, para eliminar o máximo possível dos factores que neste mundo vão contra todo o tipo de paz e justiça. Pode explicar e tentar combater esse processo de tomada de decisões nas eleições, processo esse que leva a uma polarização política, a uma centralização e falta de diversidade. Pode estudar como funciona a motivação das pessoas, de forma a conseguir despertar mais o interesse e a consciência das mesmas para a importância dum sistema social bom (seja que tipo de governo for). Mas este conhecimento não pode ser aplicado, se o governo em vigor não apoiar a sua investigação e se não tomar decisões baseadas nessa investigação. Mas será que o fará tendo noção de que isso trará uma sociedade mais justa? Uma sociedade em que haverá mais igualdade entre todas as classes, entre as quais a classe política? Enquanto tivermos a tendência de querer mais para nós e para os nossos julgo difícil de mudar essa desigualdade final, mas quem sabe a investigação em psicologia não pode investigar aquilo que já foi "estudado" por alguns sistemas filosóficos orientais, como o zen ou o taoismo, que defendem exactamente que todo o tipo de desiquilíbrios e instabilidades sociais que existem advêm do ego e de constantemente nos julgarmos algo mais importantes que os outros.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Presenting a true artist

Vivemos num mundo de grande diversidade, em que um sem fim de caminhos pode ser traçado na busca da felicidade. Há pessoas cuja obra contribui para a edificação humana com grandes intelectos, outras com grandes corações. Devemos gratidão a todos. Um tipo de obra que me toca duma forma especial é a arte: a capacidade de expressar o que nos vai na alma através de um grande leque de instrumentos, desde a pintura, à literatura, à música, e um sem fim de outras artes. E tenho especial apreço pelos artistas que se mantém fiéis a uma expressão profunda da sua alma (sem menosprezar os outros, obviamente). Tenho esse apreço pelos artistas que não se deixam desviar por pensamentos relativos à fama, à imagem que transmitem, etc., seguindo continuamente no caminho de expressão do sentimento. Isso é algo que se capta quando se ouve algum artista a cantar ou a tocar algum instrumento. Há uma energia especial que dele emana e que nos contagia.
Um artista que admiro muito, no que toca ao mundo da música, chama-se John Mayer. Um artista que, apesar de ser de renome, acho que não tem a projecção merecida. Talvez por valorizar, mais que projecção, manter-se fiel à expressão do seu ser. Expressa ritmos variados, desde ao pop aos blues, passando pela mais recente influência do hip hop, sem nunca descurar as suas grandes capacidades como guitarrista. Palavras para que, melhor é sentir:




segunda-feira, 29 de junho de 2009

Expandir horizontes

Na nossa a vida, a diversidade daquilo que vivemos e experienciamos é afunilada pelos mais diversos motivos. No mundo da arte, o leque tão vasto de obras disponíveis é imensamente limitado, na medida em que apenas nos chega uma parte muito ínfima da riqueza artística. Temos como exemplo o caso de culturas pop, de música comercial, que são tipos de artes das mais difundidas pela comunicação social, e com maior impacto gerado nas pessoas. Provavelmente não é uma coincidência, e a própria Psicologia pode explicar este fenómeno através do chamado "efeito de mera exposição". Este efeito leva a que, quanto mais vezes experienciamos uma coisa, mais nos lembramos dela, mais gostamos dela, etc., salvo raras excepções. Mas o importante aqui é a importância que isto pode ter na forma como se definem os gostos e as modas, e as correntes culturais. No caso de se verificar este efeito, uma das maiores razões pelas quais gostamos deste cantor, daquele tipo de filme, desta corrente de cinema, deste estilo musical, é o número de vezes que ouvimos e vemos essas músicas e videos, filmes e obras de arte. E a comunicação social tem um papel preponderante nessa transmissão, e na selectividade dessa transmissão, fazendo com que as rádios, as revistas, a televisão e também a internet tenham muita influência naquilo de que gostamos, por mais razões que arranjemos para justificar o porquê de gostarmos de determinado tipo de arte.
No entanto há outros tipos de arte. Há muita arte que não é tão difundida, e por isso torna-se mais difícil gostar dela. Mas um ligeiro esforço inicial para ver o diferente sem preconceito permite muitas vezes que surgam imensas supresas. Há artistas fantásticos em todos os tipos de arte que possuem lógicas não muito partilhadas pelo comum dos mortais, que criam melodias às quais o ouvido comum não está acostumado, etc. Estes contributos são tanto ou mais contributivos para a riqueza da arte, estando na raíz de toda a diversidade.
Escrevo isto na expectativa de que, caso alguem perca algum do seu tempo a ler este blog, possa de alguma forma contribuir para o abrir do espírito das pessoas ao novo, e apreciar mais outras facetas da vida que não aquelas que nos são impostas pela norma social. Apesar da defesa do difente, acho que não devemos cair na falácia de nos apegarmos ao diferente da tal forma que criamos uma aversão ao igual. Há muitas pessoas que se tornam admiradores de determinados tipos de artes alternativas, ou do alternativo no geral, e adoptam uma posição demasiado crítica em relação a tudo o que é vulgar a consumido pelo espectador comum. Temos sim de ser críticos, mas associando essa crítica a uma capacidade valorização do que é bom, conseguindo extrair o que de bom têm todos os tipos de arte. Não é por um artista ter uma imagem comercial (independente de a ter porque faz parte dele ou para vender) que devemos deixar de apreciar o sentimento com que canta, ou a profundidade das suas letras; não é por um artista ter letras demasiado superficiais ou sem sentido que devemos deixar de apreciar a criatividade da parte musical.

domingo, 7 de junho de 2009

Antibióticos anti-sociais

As bacterias são organismos extremamente simples que habitam o nosso universo, e inundam o interior e exterior do nosso corpo, sendo que passam despercebidas devido ao seu tamanho reduzido. No entanto, o desenvolvimento tecnológico e científico permitiu um estudo cada vez mais aprofundado, com uma precisão espacial e temporal cada vez maior, do mundo que nos rodeia, e especificamente das bactérias e do seu funcionamento. As bactérias são organismos unicelulares que se reproduzem por mitose (crescem e multiplicam-se dividindo a meio, originando dois seres iguais ao original), que apesar do seu tamanho reduzido, conseguem afectar de forma significativa a vida de seres vivos significativamente maiores, como os seres humanos.
E como é que seres tão pequenos conseguem interferir com o modo de vida de seres muito maiores? Através do trabalho de grupo. As bactérias comunicam entre si, e assim unem forças e adquirem a capacidade de causar efeitos significativos em seres como nós. O que se passa é que as bactérias possuem um sistema de comunicação simples mas eficaz, que lhes permite juntas esforços e efectuar uma grande diversidade de comportamentos, desde a luminescência ao ataque virulento de outros organismos.
E como é que as bactérias comunicam? Muito simples: as bactérias estão equipadas com sistemas de comunicação químicos. Possuem mecanismos de síntese de determinadas moléculas, que libertam para "dizer" às bactérias da sua espécie: "estou aqui". Possuem também receptores para essas mesmas moléculas, que são os seus ouvidos e permitem reconhecer as suas parceiras. Uma bactéria virulenta não possui a capacidade de destruir um organismo com uma tamanho tão superior, e tão complexo como o do ser humano. No entanto, este sistema de comunicação permite às bactérias estabelecerem "planos estratégicos", na medida em que lhes permite saber quantas compõem o seu grupo, e quando atingiram um número suficiente grande para que a sua acção seja significativa. Portanto as bactérias multiplicam-se sucessivamente, até um ponto em que, através da libertação das tais moléculas, se apercebem de que estão em condições de entrar em acção, e o fazem.
Convém referir, que as bactérias também possuem outro sistema de comunicação químico, mas este inter-espécies, que é comum a todas as espécies de bactérias. Estas moléculas são produzidas por todas as bactérias, e são captadas por receptores que se encontram em todas as espécies de bactérias. Este segundo sistema permite-lhes ter uma "noção" da existência e do número de bactérias de outras espécies, e ter isso em conta nas suas estratégias.
Muito bem... e em que é que isto é importante, ou tem a ver com a existência de antibióticos? O que se passa é o seguinte: os antibióticos "clássicos" atacam as bactérias tentando destruí-las. No entanto, o conhecimento acerca deste sistema de comunicação das bactérias, sistema este que por sua vez se encontra na base de todas as suas acções, permite quebrar esse ligação "social", anulando os seus efeitos. Abre portas à criação de uma geração de antibióticos, com base na síntese de moléculas similares às que as bactérias usam para comunicar, mas cuja acção impede ou altera essa mesma comunicação. Há a possibilidade de se criarem antibióticos específicos para determinadas bactérias, anulando a sua coesão de grupo, mas existe também a possibilidade de se criar antibióticos que actuem sobre o segundo sistema de comunicação das bactérias, interferindo com todas as espécies. Convém, no entanto, ser cauteloso em relação a este segundo tipo, pois há que ter em conta que não todas as bactérias têm efeitos negativos na nossa vida, sendo que muitas delas têm efeitos benéficos no funcionamento do nosso organismo, e a perturbação do seu funcionamento poderia ter consequência muito graves para a vida da nossa espécie.
De qualquer forma, este conhecimento parece ser uma grande mais valia, numa altura em que o combate com os antibióticos tradicionais se tornava cada vez mais obsoleto devido à adaptação e criação de resistências por parte das bactérias. Esta nova estratégia, no entanto, anula à partida todas as suas capacidades de luta. No entanto fica a questão: apesar de, à partida, não se visualizarem grandes consequências negativas com base nesta descoberta e na aplicação destes antibióticos... a natureza tem a sua própria forma de funcionar, de uma forma equilibrada e sustentada, através da adaptação e da evolução. Não será toda e qualquer forma de alterar esse funcionamento equilibrado um perigo de consequências imprevisíveis? As coisas são como são por um motivo, e a natureza "decide" como instaurar o equilíbrio, esperemos para ver o seu veredicto final.

terça-feira, 26 de maio de 2009

A dor

Estive a pensar na dor. Senti a dor, expressei a dor, e reflecti sobre ela. A palavra dor pode ser interpretada num sentido mais fisiológico, ou num sentido mais psicológico. Quando digo que reflecti sobre a dor, não me refiro à estimulação dos nocireceptores que estão espalhados por todo o nosso corpo. Essa sensação é uma sensação relativamente objectiva, e não nos vale de muito pensar sobre ela, restando-nos pouco mais do que sentí-la.
A dor de que falo é a dor psicológica. A dor que advém da interpretação do que sentimos. Pode originar-se na dor física, mas pode ter origem meramente psicológica. Se sentirmos uma dor corporal e a sentirmos apenas e sem a interpretar como algo de negativo, nada mais será do que uma sensação física, um aviso do nosso corpo de que algo nos ameaça. Mas se interpretarmos essa dor física, pensarmos sobre ela, e avaliarmos psicológicamente como algo de mau, faremos com que essa dor seja exponenciada, surgindo ansiedade, medo... Mas como disse, nem toda a dor psicológica se origina na dor física. Algumas dores surgem e crescem no teatro da nossa mente. Sentimos medo, desilusão... todo um leque de emoções "negativas" que nos provocam uma dor interior. Mas será que essas emoções são mesmo negativas? O carácter negativo reside na nossa interpretação dessas emoções. A emoção consiste num leque de respostas cerebrais e corporais químicas e físicas, de sensações que são objectivas quando sentidas, mas muito subjectivas quando racionalizadas.
Suponhamos que ao vivenciar diversos acontecimentos que nos marcam pela negativa, sentimos uma sensação de tristeza e desilusão, o que é algo vulgar e relativamente automático. Esse tipo de acontecimento vai ficar associado a esse tipo de dor psicológica na nossa mente. No futuro, quando voltarmos a sentir essa emoção/dor, associamos automáticamente a acontecimentos negativos, avaliamos a dor como negativa, o que inevitavelmente leva a um sentido de rejeição. No entanto, apesar dessa associação ter sido criada, são coisas bem diferentes. Se quando sentirmos a tal "dor", não a interpretarmos e avaliarmos, se não a encararmos como positiva ou negativa, e simplesmente a sentirmos, sem rejeição... essa dor torna-se num fluir de energia, numa expressão do nosso ser que é muito libertadora.
Todos os nossos sentimentos fazem parte de nós, independentemente de os chamarmos vulgarmente de bons ou maus. A distinção está na mente e na interpretação. Mas sentimentos e emoções não são bons nem maus, são sentimentos e emoções e, em última instância, devem ser exprimidos sem julgamento. Quando não o são, não estaremos a promover um bem estar e uma harmonia interiores, estaremos a promover a rejeição de parte de nós, e um estado neurótico que tanto poderá ser momentâneo como poderá marcar-nos para o resto da vida.
O segredo para lidar com as emoções e sentimentos, com as pseudo-dores, assim como com os pensamentos e com toda a vida, é largar o lastro a cada momento. Vivendo cada segundo de forma verdadeira e intensa, sem rejeição de nenhuma das partes do todo, e deixando ficar para trás de uma forma desapegada, é a única forma de sarar todas as mazelas psicológicas e espirituais que atormentam e desgastam o espírito humano, e sobrecarregam com negatividade a sua essência intrinsecamente jovem. Essas mazelas que advêm da não aceitação são o que envelhece o nosso espírito imortal.
Senti uma dor que não era dor, e a dor foi-se e o amor chegou.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

August Rush

A música está em todo o lado...
É o tecido que une tudo o que existe...
É o vento que sopra nos nossos corações e acende a chama do amor...
Música é amor
A música está em todo o lado
Só temos que nos abrir a ela
Temos que a querer ouvir
A música é a pauta que define os nossos caminhos
A música é o destino e o ritmo da vida
É o brilho nos olhos de uma criança
É o romance que une dois apaixonados
Será amor? Qual a diferença?
O amor está em todo o lado
Em todo o lado está a música
Música é amor
Só temos que nos abrir a ela
e deixar a vida cantar dentro de nós

domingo, 15 de março de 2009

Não, não, não!

É desconcertante a quantidade de negação que inunda as nossas vidas. Muitas pessoas não se apercebem deste fenómeno, e isto deve-se em grande parte à focalização da nossa atenção para o exterior. Quando vivemos para o exterior há uma imensidão de coisas que se passam no nosso interior que passam despercebidas. Uma delas é a negação. Se, por algum motivo, se der uma reorientação da nossa atenção para o interior, começa o caminho da auto-descoberta. Muitas coisas novas se tornam visíveis. Uma dessas coisas é que o ser humano possui uma energia que pulsa constantemente, e se expressa em múltiplas formas: os mais variados pensamentos, emoções, e sensações que sentimos a todo o momento.
A energia está, mas nem sempre é expressa. O motivo que leva a que muitas vezes essa energia não seja expressa é a formatação social. Desde o momento em que nascemos que vamos sendo introduzidos num meio cultural onde existem normas de vários tipos. As normas e imposições físicas são aquelas que são provavelmente mais combatidas e restringidas na nossa sociedade. Mas quando se atinge a liberdade física, porque parar? Porque não procurar uma liberdade cada vez mais profunda? Somos livres, temos os nossos direitos humanos, porque temos (por vezes) igualdade, liberdade de escolha e de nos movermos no mundo da forma livre. E quanto ao nosso ser mais profundo? Somos realmente livres de expressar livremente tudo o que pensamos e sentimos? Teoricamente somos, mas não prática há entraves, que fazem com que aquilo que somos seja recalcado, suprimido, reprimido...
São essas amarras que chamo de negação. É uma negação feita por nós nos mais variadíssimos momentos, mas que é imposta socialmente. Não vamos no entanto criticar a sociedade, que não é mais do que um conceito abstracto, quando o problema, e a solução, residem dentro de nós.
A cultura segue um padrão, e um padrão tem normas. Destas normas fazem parte valores, moral, um padrão de pensamento mais ou menos comum. Surge uma dissociação entre valores correctos ou instituídos, e valores incorrectos ou "valores rebeldes". Surge uma discriminação do pensamento que é desviado do padrão de pensamento instituído.
Essas normas e essa distinção entre o certo e o errado são imprimidas no nosso sangue. O nosso pensamento, a forma como nos exprimimos e como vivemos. Dá-nos segurança pensar, sentir e agir de acordo com o socialmente correcto, e surge culpa quando agimos contra (a não ser que nos tenhamos re-formatado de tal forma a pensar que o contra é que está correcto). E quando me refiro a culpa, não estou a falar do sentido mais comum da palavra, refiro-me sim a culpa como negação de algo que fizemos, por sabermos (consciente ou inconscientemente) que vai contra o que está certo.
Portanto, começamos a canalizar a nossa energia duma forma muito definida pelos factores sociais. O problema é que a nossa energia possui uma forma harmoniosa de ser expressa, que é uma forma natural e livre. Quando tentamos alterar esse fluxo (pela formatação social), ele torna-se disfuncional, criando perturbações. Muitas dessas perturbações tornam-se tão vulgares que se acabam por tornar vulgares e aceites.
No momento em que focamos a nossa atenção no nosso interior, começamos a tomar consciências dos nossos mecanismos de repressão. Quando paramos de reprimir surge uma grande satisfação e equilíbrio interior. Além disso, surge também um verdadeiro conhecimento da nossa natureza, da nossa forma natural de expressar a nossa energia, sem repressões, sem negação.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Ensaio sobre a cegueira

Até onde somos capazes de ir por um pedaço de pão?
Até que profundezas somos capazes de descer de forma a satisfazer os nossos instintos mais básicos?
Que transformações podem operar em nós quando aquilo que tomamos como garantido se desvanece mais rápido do que o poder de assimilação da nossa mente e coração?
Que mudanças transmutam o ser humano quando o medo da inexistência vem com o nascer do sol?

Somos animais, disso não há dúvida. E como animais, prezamos acima de tudo a nossa sobrevivência, como indivíduos e como espécie. E daí a valorização por alguns aceite, por alguns reprimida e escondida, da comida e do sexo. Mas a verdadeira natureza do Homem surge quando ameaçado. Quando a sua materialização está em perigo, aí sim se vê quais são as suas prioridades. Quando o medo de poder não ser é tão forte, as necessidades mais básicas assumem proporções interestelares, para não dizer infinitas. Uma migalha de pão ergue-se perante a maior das estrelas, enfrentando-a.
No entanto, nem toda a gente reage da mesma forma ao medo. Será que esses estereótipos de bondade e altruísmo têm existência própria ou são material de filmes e de sonhos? Será que há pessoas que abdicam da sua própria presença neste mundo em prol do próximo, ou acontece que apenas ainda não encontraram a ausência certa de migalhas que os façam confrontar o medo?

Eu pessoalmente acredito que tal bondade pode nascer no coração humano. Tal como a flor de lótus nasce da lama quando as condições certas surgem, muitas flores podem nascer dentro de nós quando o medo desaparece, quando o egoísmo se evapora. Apesar disso, e perante o estado actual das coisas, parece-me mais fácil encontrar um trevo de quatro folhas... no deserto. Não digo que a bondade não exista neste mundo, e no nosso mundo. Vejo actos de bondade, de amor, gestos de grande beleza... raramente, mas vejo. Nas raras vezes em que o medo desaparece dos nossos corações, surge uma flor. E já sendo tão raras essas vezes, não seriam tão mais raras se a nossa vida dependesse do egoismo?

Somos animais, mas somos humanos. Somos como os outros animais, mas não somos exactamente como eles. Possuímos o dom da consciência, a linguagem universal do amor. Mas essas qualidades têm de ser cultivadas, ou não passaremos de abutres a sobrevoar um naco de carne, egoistas, à espera de uma oportunidade.

O facto de vivermos numa sociedade (e agora falo de nós, países mais desenvolvidos) em que temos acesso a muito por pouco faz com que a nossa valorização das coisas decresça. Sermos confrontados com os nossos medos, como o medo de morrer à fome ou o medo de não voltar a ver, faz-nos pensar e reavaliar prioridades. O cego que deixa de ser cego absorve cada partícula de luz como se fosse a última, assim como aquele encontra um copo de água no fim do deserto deixa cada gota dançar na sua boca. Estamos tão acostumados a tudo que não nos imaginamos com nada. E quando o nada surge, surge também o medo. E é esse medo que nos torna na nossa metade inferior: animais.

Discuto a natureza humana. Mas eu não conheço a natureza humana. Apenas conheço a natureza que o humano mostra. Discuto a realidade, e a realidade é triste, é pobre, é violenta. Mas isso não quer dizer que a realidade seja a natureza. Acredito que há mais, espero que haja mais.

domingo, 29 de junho de 2008

Os ilusionistas

Para começar, o que é o pensamento?
O pensamento é o processo de associação de ideias, com base num conhecimento pré-existente. Relaciona ideias com base num conjunto de pressupostos (crenças, valores, etc.). Esse conhecimento é forjado pela educação, pela cultura, pelas regras e padrões sociais, e define a forma como pensamos. O pensamento nunca é livre e nunca é objectivo, é extremamente rígido. Acaba por ser uma fenómeno de associação de ideias que não é nosso, mas sim do resultado 'evolutivo' de um embate de ideias ao longo da presença do Homo Sapiens Sapiens no oasis terrestre.
As fronteiras do pensamento definem as fronteiras do comportamento e as fronteiras da vida (ou antes, da nossa visão da vida), e esse modelo imposto do exterior limita a forma como experienciamos a realidade, de uma forma que faz surgir um fosso abismal entre a essência da realidade e essa rede complexa que forma aquilo que julgamos ser a nossa identidade (aquilo a que Kant chamaria de incognoscibilidade do real).
O pensamento não é a nossa identidade, não somos nós, é apenas o repositório de todo o lixo e entulho incutido pela chamada educação, que acaba por ser uma deseducação que impões limites ao nosso espírito. David Hume estava certo quando disse que o sentimento de Eu derivado das ideias (da sua associação) é um sentimento ilusório, pois a nossa verdadeira identidade é a nossa essência imutável, a consciência que se mantém desde que surge o primeiro sopro de vida dentro de nós até o suspiro do relaxamento final.
A sociedade pensa através de nós, e esse fenómeno compulsivo e constante de pensamento leva à criação duma identificação muito sólida e enraizada com esse mesmo pensamento, que nos leva a olhar tudo o que nos rodeia através desse prisma socialmente condicionado: olhamos tudo através dos valores instituídos. A nossa relação com os outros torna-se uma constante comparação entre tudo o que nos rodeia e aquilo que a sociedade tem definido como 'bom' ou 'mau'. E isto leva a que não consigamos experienciar nada directamente e de forma pura, nem aceitar e valorizar as coisas pelo que são, em vez de as avaliar pela distância a que se encontram do que está definido como 'certo' - está é a grande consequência da tirania do pensamento ao nível da qualidade da nossa experiência.
À nossa volta tudo é belo e tem um valor intrínseco, e não podemos detectar esse valor se estivermos sempre a comparar com algo (com outra pessoa, com um ideal, etc.). E o pensamento é a névoa vinda da sociedade que deturpa a nossa percepção e leva a esse afastamento da beleza da vida. Mas a raiz dessa influência negativa não vem, em última instância, da sociedade. E porquê? Porque a sociedade não existe, é apenas um conceito abstracto sem concretização material.
Esse problema tem a sua origem na própria mente e no próprio pensamento. Este, por ser automático e condicionado pela experiência, assume o controlo da nossa vida (percepções e acções) de forma inconsciente (não num nível inconsciente inacessível, mas num nível quase consciente). A única forma de ultrapassarmos este problema da existência humana é através do autoconhecimento e da consciencialização desses processos automáticos. A chave está na compreensão do nosso pensamento, no conhecimento da nossa mente, e na transcendência dessa mesma mente e desse pensamento.
Quando partimos do inconsciente rumo à consciência, a névoa do pensamento dissipa à medida que é compreendida... E aí há a hipótese de se conseguir um relance da vida e da realidade. Aí podemos começar a ver as coisas cada vez mais como são, e cada vez menos como 'deviam ser'.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Eu sou, tu és, todos somos

Vivemos num mundo de relações instáveis, num mundo onde é vulgar encontrar relações que se afundam nas profundezas dum mar escuro e infestado de medos, afastando-se do ar fresco da amizade, da luz do amor, da paz...
E o grande problema, na minha opinião, é que somos seres doentes, e um ser doente não tem a capacidade de construir algo tão belo como teria se fosse saudável - neste caso uma relação com outro ser. Quando falo de doença, não me refiro a uma doença física, ou a uma doença mental, mas mais a uma doença espiritual. Claro que quando todas as pessoas são doentes da mesma forma, a doença passa a ser a sanidade, passa a ser a saúde. Tendemos a encarar os desvios como algo que precisa de ser corrigido, de forma a se assemelhar mais à média. E tendemos a encarar o vulgar como normal, e aceitá-lo. A nível físico atingimos um grau de relativo bem-estar (isto para não falar nas grandes disparidades que encontramos pelo mundo fora); a nível mental a nossa insanidade é considerada normal, porque somos todos insanos, e porque escondemos a nossa insanidade para fazer uma sociedade resultar, e vamos sobrevivendo como espécie... mas será que tem mesmo resultado? Olhemos à nossa volta...
Portanto, abandonando essa visão comum, de que o que é partilhado por todos é normal, vamos adoptar uma visão mais objectiva do que considero ser um problema.
Vivemos numa grande instabilidade interior, constantemente num grande tumulto, numa desintegração extrema. Só que para nos apercebermos destes nossos problemas exige-se uma profunda auto-obervação e autoconhecimento, mas o mais alheios possível à influência cultural. Se olharmos pelos olhos da sociedade vamos ver algo normal, porque é igual à maioria. Se olharmos de uma forma mais transcendente vamos ver algo que precisa de ser curado. Este algo passa facilmente despercebido, porque exigem um olhar profundo.
De que falo então...?
Falo de todas as barreiras psicológicas que deturpam o nosso espírito. De todas as formatações que impedem a exteriorização do nosso ser (vulgarmente chamadas de Superego). Essas limitações, que no fundo são auto-impostas (ou permitidas por um estado passivo e inconsciente) impedem-nos constantemente de mostrar aquilo que temos dentro de nós. Temos medo de fazer má figura perante os olhos dos outros, de ser considerados estranhos, de ser de certa forma 'rejeitados', no geral temos medo de qualquer reacção negativa por parte dos outros. E seguir aquilo que é a regra aproxima-nos da certeza de sermos considerados normais, afastando-nos no entanto dum estado interior consolidado. Temos medo do que nos possa acontecer no futuro, temos medo do que nós irá acontecer no futuro que nos vá causar dificuldades, temos medo do que nos aconteceu no passado (falo de todos os acontecimentos negativos que nos marcam e por vezes continuam a atormentar), temos medo de morrer... é um sem fim de facetas de um medo que ensombra a natureza do ser que temos dentro de nós.
É a este medo generalizado que eu chamo de doença. No entanto acredito que esta doença tem uma cura. Só que para o desespero (no melhor dos casos, porque isso significaria uma vontade de melhorar), conformismo ou negação daqueles que buscam a felicidade e auto-realização no exterior, este cura não pode ser conseguida através de nenhum especialista, de nenhum auxílio externo. Esta cura, que é uma auto-cura, só funciona se nos conhecermos, conhecendo assim aquilo que tem de ser enfrentado.
Tudo isto para chegar à seguinte conclusão:
Não podemos construir um castelo sobre areias movediças. Descontextualizado? Não. Não podemos construir nada sólido sobre algo que não seja sólido também. Não podemos partir numa jornada de compreensão dos outros, se não nos compreendermos a nós próprios. Não podemos partir numa aventura de amar alguém, se não nos amarmos a nós próprios. E aqui está a chave para o problema das relações: a falta dessa integridade interior, para que possamos partir para o desafio de uma relação com outra pessoa. Um ser instável interiormente, um ser doente, não consegue relacionar-se de forma pura com outro ser, consegue-o apenas duma forma superficial e egocêntrica. Antes de iniciarmos uma dessas aventuras de amizade ou amor, devemos preparar-nos para a longa viagem. E aqui não se trata de nos munirmos de provisões para o caminho, mas sim de de nos construírmos como seres unos, íntegros, sãos, o que depois se reflectirá na relação. É fundamental deixarmos de focar o exterior como causa dos nossos problemas, temos de focar mais aquilo que mais está ao alcance de ser trabalhado, e que neste caso é aquilo que mais precisa de ser trabalhado: o nosso ser interior.
Quando partimos para uma relação sem preparação (o que também é importante ao início, porque nos dá aprendizagem, nos permite mais tarde melhorar - embora muitos se recusem em aprender) os conflitos estão destinados a acontecer. Um ser doente junta-se a outro ser doente, e a doença multiplica-se. Dois seres tão pouco consolidados fazem com que uma relação desmorone tal qual castelo de cartas. Dois seres instáveis constroem relações de posse, de ciúme... no fundo relações abaladas constantemente por diversas facetas do medo.
Quando partimos para uma relação após o devido crescimento pessoal (atingiremos alguma vez um patamar 'suficiente'?), há a hipótese de se criar um espaço belo de troca sem agressividade, de liberdade. Pode cultivar-se um jardim onde muitas vezes floresce a amizade e o amor.
O mundo em que vivemos é feito de relações, e vale a pena mais uma vez enfatizar que a única forma de mudar o mundo é mundando-nos a nós próprios, porque o mundo não pode ser mudado directamente - o mundo é uma abstracção. O mundo é constituído por biliões de relações, e nós só nos podemos mudar a nós nessa relação constante. O mundo não pode ser mudado, e não devemos tentar mudar o próximo, porque não temos esse direito, e porque só o outro se pode mudar a si próprio. Podemos sim, abrir uma janela na sua mente e no seu espírito, uma janela para a mudança... e se esse próximo optar por colocar a cara de fora da janela e inspirar a doce fragrância do crescimento pessoal, pode ser que decida dirigir-se para a porta, transpô-la, e relacionar-se com o mundo.
E se compreendermos isto e mudarmos, já o mundo terá melhorado, já a relação com o outro terá mudado, e já o outro terá consequentemente mudado.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

The silence...

"There is a pleasure in the pathless woods;
There is a rapture on the lonely shore;
There is society, where none intrudes,
By the deep sea, and music in its roar:
I love not man the less, but Nature more..."
Lord Byron

Há um profundo prazer que paira no ar que inunda os caminhos ainda não trilhados pelo Homem; Há uma felicidade extrema no percorrer dum caminho nunca percorrido, um caminho de mistério, desprovido de ambição, desprovido de um objectivo além do próprio caminhar. No deambular sem busca está a paz, na aceitação do desconhecido está a aventura da vida: o beijo constante da felicidade.
Há um êxtase na costa solitária, o florescer de um silêncio que só pode ser atingido quando o Homem atinge a integridade de conhecer-se e aceitar-se, derivada da capacidade de estar apenas consigo, livre.
Há a sociedade, da qual o prazer profundo e o êxtase se afastam. Há essa sociedade, cujas amarras prendem a consciência do Homem e removem a sua liberdade. Há todas essas regras vãs, todas as normas fúteis, todas as leis ocas que destroem a espontaneidade do Homem. Toda esse rede burocrática moral, social, cultural, confunde e impede de ver a derradeira lei: a lei do amor. E com o amor vem o respeito, a compreensão, a paz e a justiça. Vem uma aceitação do outro em todas as suas diferenças, por mais diferentes que sejam, um respeito pelo seu ser.
O amor é natural, o amor é a natureza, é o regresso de cada ser vivo, de cada átomo, ao seu papel de igualdade perante tudo o que o rodeia. Se somos iguais respeitamos e aceitamos; se aceitamos e sentimos que somos aceites indiscriminadamente, somos livres; é natural...
Na gélida brisa por entre o ar rarefeito e o silêncio das grandes montanhas. Voando sobre os verdejantes vales, percorridos por rios de água pura e cristalina, e riachos que cantam o amor. O desembocar num mar vasto e profundo... Aí está a felicidade. No abraço constante desse mesmo mar, cuja espuma acaricia a areia, compondo uma sinfonia que desperta a paz dentro de nós. No brilho das folhas que dançam ao sabor do vento. No infinito de amarelos, vermelhos e laranjas que emana um pôr-do-sol... Aí está a felicidade. A harmonia desse estado natural e neutro desperta em nós um silêncio interior.

Não gosto menos do Homem, mas mais da natureza.

sábado, 15 de março de 2008

Unity

Que bom é entregarmo-nos totalmente ao momento, sem receios nem inibições. Que extasiante é comunicarmos com o próximo, sem medo, fundindo as nossas almas. São tão raros os momentos em que se vivencia tal liberdade. E porque? Porque é tão difícil sermos apenas nós próprios? Porque é tão difícil sermos transparentes, autênticos, sinceros, genuínos, livres... Porquê tanta dificuldade em transpor as barreiras invisíveis, ilusórias, do medo?
Quanto mais conhecemos as camadas mais profundas do nosso ser, quanto mais sedimentamos, quanto mais nos integramos, solidificamos e condensamos, maior é a coesão. E quanto maior a coesão, maior a segurança. E quanto mais seguros somos, maior a protecção contra a erosão das pressões sociais. O escudo do nosso auto-conhecimento reflecte os raios do medo de volta...
Mas de volta para onde?
Esse medo não provém do exterior, mas sim de dentro de nós, e somos nós que permitimos o crescimento dessa erva daninha interior. A própria pressão social cresce e fervilha dentro de nós, não é exterior, é ficção. A nossa necessidade de nos sentirmos seguros e integrados leva-nos a copiar os outros e aliar-nos ao rebanho, moldando o nosso ser. Essa necessidade constante de ajustamento é o medo profundo que nos limita permanentemente e nos impede de sermos transparentes. E essa fricção eterna entre o que somos lá no fundo e o que julgamos ter de ser para nos adaptarmos e não sermos rejeitados... essa pressão é um fardo gigantesco que cada ser humano carrega ao longo da sua vida. Não admira que não consigamos ser verdadeiramente felizes, profundamente e constantemente felizes, quando vivemos em constante (apesar de inconsciente) esforço.
Será possível solidificar o nosso ser a tal ponto, que nos tornamos livres de sermos quem já somos? Será possível fazer a vida pulsar com tal intensidade nos nossos corações, que se cria uma barreira que não é uma barreira, mas sim uma ponte. É uma barreira porque nos protege de nós próprios, das limitações que nos auto-impomos, do medo... mas é também uma ponte. É uma ponte para os outros, uma porta para o amor, uma janela que se abre para a vida e dá a conhecer o céu da liberdade.

segunda-feira, 3 de março de 2008

My plastic heart cannot love

O meu amor é como um rio. Um rio tão vasto cujas margens se encontram fora do alcance de qualquer olhar, tão extenso cuja foz se encontra a um milhão de anos-luz da nascente. A força da corrente possui em si a força de mil paixões, e a vida brota dentro das suas águas. Mas o rio é travado por uma barragem, e a barragem é o medo. O medo é essa barreira que transforma o rio numa energia diferente, transforma o amor em algo que muitos chamam de amor.
Mas o verdadeiro amor apenas existe quando o rio atinge a eternidade do oceano. Apenas quando o rio se abre para o mar, e se relaciona com o todo, com o próximo, existe amor. O meu coração é a nascente de um rio chamado amor, e esse rio é do tamanho do universo. A energia desse rio pulsa continuamente e pede para eclodir. Mas falta a fórmula, a chave, que liberta o coração das garras do medo, que fará o meu ser explodir numa supernova infinitamente brilhante, com um leque de cores inimaginável, e um aroma adocicado a paz e liberdade.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Sem título

Sonho com um estado de liberdade total. Um estado onde a dor de existir dê lugar à compreensão da felicidade inerente à vida. Um lugar onde o pensamento surge... mas não predomina, pois fá-lo o coração. E o pensamento presente é incondicionado, quebra as amarras de todos os medos humanos, e permite a expressão total do ser, livre...
Sonho com uma vida onde toda a falsidade se desmorona, e onde no simples facto de transparecermos de forma límpida aquilo que somos reside a realização das realizações.
Mas com a maior das liberdades, vem a maior das responsabilidades. E com a liberdade de ser, vem a responsabilidade de ser realmente livre. O que implica a responsabilidade de nos desapegarmos... A capacidade de, após uma entrega total ao momento presente, nos deixarmos morrer para o passado, para o que não é real. Tornamo-nos assim independentes de tudo, e o nosso estandarte passa a ser o presente.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Reflexão

Muitas batalhas o Homem trava nas planícies da vida...
Mas a maior das derrotas é sem dúvida abdicar de si próprio.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Os idiotas

Somos seres pensantes, disso não há dúvida. Questiono-me todos os dias de que nos vale esse potencial no que toca ao nível mais fundamental da vida. Claro que não me refiro ao nível da aquisição e melhoria do conhecimento, nem ao nível de algumas formas de comunicação superficiais como as que utilizamos hoje em dia. Refiro-me ao nível das relações. Ao nível das relações com aquilo que nos possuímos - ou nos possui -, ao nível da relação com aquilo de que fazemos parte - a natureza -, e ao nível das relações com os outros - aquilo que faz de nós humanos. As relações dão sentido à vida, e a vida é feita de relações.
O pensamento é uma ferramenta sofisticada e complexa, de enorme valor, que nos permite através da aquisição de conhecimento melhorar o nosso bem-estar exterior. O pensamento leva a uma melhoria da nossa vida física, o que concerteza abre caminho a um bem-estar mental ou espiritual. No entanto, de nada nos serve ter a porta aberta se não a atravessamos.
O pensamento permite a existência da linguagem, que possibilita a transmissão de conhecimentos, e a acumulação de todo o tipo de informação acerca de nós próprios a um nível material, e um sem fim de técnicas que nos permitem embelezar a vida, através da pintura, da música, da poesia. No entanto, não me parece sábio transformar esse acessório que é o pensamento numa obsessão.
Acabamos por viver num mundo de ideias que chamamos de realidade. Como seres pensantes e simbólicos, criamos e copiamos ideias, que servem de orientação ao nosso percurso de vida, às nossas decisões, ao nosso pensamento. Os mais empenhados dedicam-se a um processo de polimento dessas ideias, até que se tornem ideais. Mas as ideias deturpam a visão, e os ideais destroem a realidade. Devemos ter muita cautela com a adopção de ideais se queremos melhorar a realidade, pois ao olhar o mundo segundo um prisma idealista não o vemos como é, vemos como gostaríamos que fosse, e ao nos recusarmos a aceitar a realidade como é, nunca a poderemos mudar.
Vivemos constantemente de acordo com padrões de pensamento estabelecidos por outros e aceites por nós, por vezes aprimorados por nós, e o seguimento contínuo desses padrões limita a nossa forma de encarar o mundo e abordar a vida. Um político abre os olhos e vê: comunistas, democratas, socialistas. Um religioso abre os olhos e vê: católicos, hindus, ateus. A ideia que eu adoptei como minha, contra a ideia que tu foste formatado para aceitar como tua. Eu fecho-me na minha ideia, tu fechas-te na tua ideia. Eu olho para o rótulo que criei de ti, e tu continua a ser preconceituoso, por favor.
E no meio disto tudo, onde está a capacidade de ver o ser humano por detrás das ideias? Se eu me assumir como materialista, recuso-me à possibilidade de existência de algo não material. Se for racionalista, não aceito nada que não possa ser validado pela razão. E por aí adiante...
Deixemo-nos de ismos e de istas... cada ideal ou crença fecha uma janela para a realidade da vida. Cada padrão que assumimos para guiar o nosso pensamento distorcerá a nossa capacidade de encarar a vida como ela é: misteriosa, imprevisível... e impedir-nos-á de viver da forma mais plena: momento a momento.
Dizem que somos inteligentes, e dizem que somos conscientes. Mas todas essas capacidades, de nada nos valem se continuarmos a perder-nos entre o nevoeiro das ideias pre-concebidas. Tudo se resume a uma questão de preconceito. Mas não preconceito no sentido vulgar da palavra, e sim no sentido mais puro - olharmos e acharmos que sabemos porque já tínhamos pensado e decidido que assim era.